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DIAS DE REGRESSO

As férias significam, para muitos de nós, momentos de descompressão, de reencontro com a família e de descanso do ritmo apressado e, muitas vezes, repetitivo que marca a vida escolar e profissional.

Longe das exigências diárias, o tempo livre convida-nos a abrandar e a recuperar o nosso equilíbrio.

Com mais tempo e menos pressa, damos asas à nossa criatividade; dedicamo-nos ao que mais gostamos e que, com a azáfama dos dias corridos, muitas vezes colocamos de lado; podemos pensar com mais calma ou, simplesmente, não fazer nada — algo que, muitas vezes, é tudo o que precisamos.

Mas, mais do que uma pausa, as férias devem ser vistas como um dom: um tempo que, quando vivido com presença efetiva, nos põe em contacto com o que realmente importa e nos faz bem.

Férias não são apenas uns dias fora. Férias devem ser também “dias dentro”: dentro de nós, dentro dos outros, dentro Daquilo que permanece quando tudo passa.

Li certa vez que “não estamos feitos para a velocidade, mas para a profundidade”. Talvez seja esse o apelo do tempo de férias: abrandar o ritmo e mergulhar no mar profundo das nossas relações e da nossa fé. É uma oportunidade para estar — simplesmente estar — com os outros de forma mais autêntica. Escutar com atenção, olhar com empatia, cuidar com palavras que não sejam apenas sons; que sejam presença. Sem pressas. Porque, quando damos tempo ao tempo, redescobrimos o valor das pequenas coisas e tudo volta a fazer sentido.

Nesse ritmo mais lento, abre-se também espaço para o silêncio.

Um silêncio cheio de presença e significado. Como afirma o Cardeal Robert Sarah, “no silêncio o homem consegue escutar Deus. É no silêncio que Ele habita, e só ali podemos encontrá-Lo…” (A força do silêncio). Talvez seja precisamente esse silêncio, habitado por Ele, que nos falta tantas vezes no ruído dos dias e que devemos deixar entrar para nos tornarmos à imagem de Deus.

“Deus mora onde o deixamos entrar“, responde Martin Buber, contando a resposta de um mestre, à pergunta: “Onde mora Deus?”. E o tempo de pausa pode ser, assim, também um tempo de escuta, se o quisermos, deixando que Deus entre e nos fale, não com alarde, mas em sussurro, na leve brisa que transforma e cura. O tempo de pausa deixa de ser apenas descanso e torna-se encontro: com o sagrado, com o essencial, com Aquilo que permanece quando tudo passa.

Mas, depois das caminhadas sem pressa, dos mergulhos e dos silêncios, depois dos dias em que o tempo nos pertenceu por inteiro, há também os “dias de regresso” e, neles, outra graça — mas com a mesma graça, a mesma vontade — nos é pedida.

O regresso, tantas vezes vivido com a pressa ou com a ansiedade dos recomeços, pode ser oportunidade para uma nova escuta. É um tempo em que, tendo estado afastados, retemperamos forças e podemos voltar a casa, à escola, à nossa missão, com outros olhos, mais atentos e disponíveis.

O regresso não precisa de ser uma repetição monótona do que já foi; pelo contrário, pode ser uma ocasião real de fazer de novo e melhor — com mais intenção, propósito e sentido. De fazer diferente, pois “é importante recordarmos que as modalidades do recomeço não são padronizadas e que, inclusive, é bom que seja assim” (Tolentino de Mendonça).

Mas, como podemos fazer diferente?

Antes das ações concretas, podemos começar pela atitude com que enfrentamos o recomeço. E como não recordar, aqui, as palavras de S. Paulo: “Tudo o que fizerdes, fazei-o com amor” (1 Cor 16:14)?
O regresso deve ser isso: a oportunidade de retomar o caminho ou seguir noutra direção, mas com um amor renovado, com o olhar mais límpido, com o coração mais disponível.

Santo Agostinho, mestre em dizer muito com poucas palavras, afirma que “é quando parece que tudo acaba que tudo verdadeiramente começa.” Esta perspetiva convida-nos a olhar o regresso como uma oportunidade onde o fim das férias se transforma no início de algo com outro, ou mais, sentido. As férias mostraram-nos como é importante parar, descansar e recuperar forças. O regresso lembra-nos que a vida continua e que é preciso seguir em frente, com um novo entusiasmo e passos mais firmes. É tempo de assumir as novas responsabilidades com uma nova determinação, mas com calma; enfrentar novos desafios, sem medo: “Não tenham medo de errar, de cair, de se cansar. O caminho cristão é caminhar, cair, levantar-se e continuar.” (Papa Francisco).

Ainda em tempo de férias, mas já com o olhar pousado no recomeço, gostaria, para terminar, de partilhar uma imagem que me convida sempre à reflexão: a vida é como um livro que vamos escrevendo, página a página, dia a dia. Somos os autores e cabe-nos decidir o tom e as palavras. Algumas páginas são escritas em dias longos e intensos de trabalho; outras, em tardes calmas e serenas de verão. Mas todas são importantes, todas contribuem para a nossa história.

Que esta imagem nos inspire a acolher com serenidade e confiança o novo recomeço e que as páginas deste novo ano letivo possam ser escritas com mais clareza, entrega e fé.

Rute Fontaine
Presidente da Associação de Pais do Colégio de Nossa Senhora do Rosário