Não sendo dogma de fé nem categorizada entre as festas marianas maiores, foi oficialmente inserida no Missal Romano em 1505, é celebrada na Igreja Católica como memória obrigatória, representada na arte cristã e destacada pela Igreja Ortodoxa como uma das suas doze grandes festividades litúrgicas.
Curiosamente, é uma tradição inspirada em escritos apócrifos, atribuída ao Protoevangelho de Tiago. Segundo este registo, Maria, ao completar três anos, foi levada pelos seus pais – Santa Ana e São Joaquim - ao Templo de Jerusalém, foi recebida pelo sacerdote, apresentada e consagrada a Deus, aí permaneceu e foi educada até completar doze anos.
Esta narrativa remete-nos para uma outra, essa sim, biblicamente fundamentada - a Apresentação de Jesus no Templo, do Evangelho segundo S. Lucas (Lc 2, 22-40): José e Maria cumprem os ritos de purificação e apresentam o Menino Jesus no Templo, 40 dias após o seu nascimento, em conformidade com a tradição e a Lei de Moisés, segundo a qual, o filho varão primogénito deveria ser consagrado ao Senhor. Diz-nos o texto de Lucas que, deste acontecimento, apesar de se tratar do cumprimento da Lei, irrompeu algo novo e surpreendente: o justo Simeão e a profetiza Ana estiveram presentes, testemunharam a apresentação do Menino Jesus, reconheceram-no como o Messias esperado, a Luz e a Esperança das nações; profetizaram a sua vida como sinal de contradição e um desfecho de sofrimento particularmente para Maria, sua mãe.
A Apresentação da Virgem Maria no Templo, assim como a sua Natividade celebrada a 8 de setembro, fazem parte de uma expressão devocional que estabelece a correspondência entre algumas festas do ciclo mariano e as do ciclo de Jesus. Entre outras razões, inspiram a nossa relação crente com Maria, no seu vínculo indissociável com o mistério de Deus em Jesus, Seu Filho.
Sendo claro que a Apresentação da Virgem Maria no Templo carece de fundamentação bíblica credível, qual é, então, o propósito de assinalarmos esta memória litúrgica?
O Papa S. Paulo VI, antecipando algumas das nossas dúvidas e questões, pronunciou-se na encíclica Marialis Cultus do seguinte modo: por detrás do que tem de apócrifo, a Festa da Apresentação da Virgem Maria propõe conteúdos de elevado valor exemplar e veneráveis tradições, radicadas sobretudo no Oriente (cf. MC, n.º 8).
Considerando a missão singular de Maria na História da Salvação, esta memória liturgia não tem pretensão de evocar um acontecimento histórico, mas de realçar a sua consagração desde sempre, o dom total de Maria a Deus. Entre os conteúdos de elevado valor, são dignas de apreço as atitudes dos pais, do berço familiar: reconhecendo o nascimento de Maria como dom de Deus, agradecem; conscientes de que a sua vida não lhes pertence, apresentam-na a Deus, a Ele a entregam e confiam. Maria, desde menina, cresce num ambiente que a estimula à bem-aventurança de escutar a Palavra de Deus e a pô-la em prática. No conjunto, é-nos dado um quadro devocional com alguns indicadores idealizados da preparação progressiva da jovem de Nazaré, a fim de aderir aos planos de Deus e vir a ser templo do Filho, Mãe do Messias.
Saltando da narrativa para a nossa condição humana, sabemos que o amor e a bondade não se improvisam.
Convicto disso, o nosso venerável fundador, Jean Gailhac, sempre nos transmitiu a importância da educação desde a mais tenra idade, porque a árvore será o que receber das suas raízes; e insistia na formação da consciência e da interioridade das crianças e jovens: cuidar do coração como o campo de Deus.
Maria, apresentada a Deus ainda menina, foi aprendendo a escutar, a amar a Palavra, a maturar no coração, a consciencializar, a entregar-se, a ser de Deus. Segundo S. Lucas, na narrativa da Anunciação (Lc 1, 26-38), Deus também é apresentado a Maria, de modo imprevisível, e ela mostrou-se pronta a acolher o Seu estilo, a cooperar com a prontidão que brota da humildade de mulher bem enraizada. A apresentação de Deus a Maria também se foi revelando progressivamente: na identidade do seu próprio Filho e Senhor, no seu povo com as lutas e esperanças do seu contexto histórico, no interior da sua própria consciência e coração. Movida pelo Espírito, Maria prossegue a sua apresentação no templo em que a sua existência se tece: torna-se presente na resposta às necessidades e na gratuidade do seu canto de louvor, na iniciativa, na intercessão e na descrição, nos acontecimentos de luz e nos de crise. Maria apresenta-se e é Presença!
Celebramos e contemplamos Maria.
Mãe, Discípula e Senhora que nos inspira a viver em dinamismo de apresentação e a sermos presença nos nossos templos quotidianos: atentos ao Espírito, com olhos, ouvidos e corações abertos às necessidades dos irmãos, artesãos de cuidado com os que mais sofrem, com humildade para caminharmos juntos, unindo esforços, e com generosidade para cooperarmos com Deus na transformação do mundo.
Inspiradas no seu significado, esta festa mariana é escolhida pelas Irmãs do Sagrado Coração de Maria para a transição das Equipas de Liderança do Instituto. Com Maria, com muita gratidão e afeto pelas Irmãs da Equipa cessante, celebramos o caminho de fidelidade percorrido ao longo dos últimos seis anos e os frutos do seu serviço de liderança. Com Esperança, confiamos a Deus a nova Equipa que agora inicia o seu mandato, invocando a bênção e unção do Espírito sobre as Irmãs que a constituem. Inspiradas por Maria e fiéis ao carisma recebido, apoiadas pelas Irmãs e colaboradores, possamos ser mulheres de Esperança e servir em dinamismo de apresentação; abertas à novidade de Deus e colaboração com outros, sejamos presença que abraça a vulnerabilidade e fortalece os sonhos, a construir a comunhão para que todos tenham Vida (cf Doc Cap. 2025)
M.ª Teresa Nogueira, RSCM
Conselheira da Liderança do Instituto





















