A relação entre o ser humano e a simbologia é ancestral, profunda e universal. Desde as primeiras pinturas rupestres até os emojis que usamos hoje, o nosso modo de pensar e comunicar está estruturado em símbolos. Eles ajudam-nos a compreender o mundo transformando experiências complexas, como amor, Deus ou a morte, em imagens e ideias.
Carl Jung, médico suíço que estudou profundamente a mente humana, defendia que psique humana não é apenas individual. Ela contém “camadas” profundas que herdamos enquanto espécie, uma “memória simbólica” que chamava de arquétipos, isto é: imagens universais que habitam o inconsciente coletivo e onde vivem padrões universais de comportamento e temas simbólicos que aparecem em todas as culturas e épocas. Segundo Jung, os arquétipos são importantes porque moldam a nossa forma de amar, temer, buscar sentido, enfrentar desafios ou criar identidade, por exemplo. São uma espécie de “pontos fixos” da alma humana.
Na religiosidade os símbolos ajudam a conectar pessoas a tradições e significados mais profundos. Iniciámos recentemente a Quaresma. Um período particular para darmos um novo impulso à nossa fé e colocarmos no centro da vida a relação com Deus, deixando que o Espírito Santo faça maravilhas. O Papa Leão XIV na Mensagem para a Quaresma deste ano, que aqui espelharemos amplamente, diz-nos que “o itinerário quaresmal se torna uma ocasião propícia para dar ouvidos à voz do Senhor e renovar a decisão de seguir Cristo, percorrendo com Ele o caminho que sobe a Jerusalém, onde se realiza o mistério da sua paixão, morte e ressurreição.”
Na passada quarta-feira sobre a cabeça de muitos de nós, terão caído cinzas acompanhadas de um lembrete: “Lembra-te que és pó e ao pó hás-de voltar” ou “Arrepende-te e acredita no Evangelho”.
Símbolo e palavra, não sendo a “coisa em si”, apontam para ela.
Na referida mensagem o Papa centra-se em dois verbos: escutar e jejuar. Começa por referir “a importância de dar lugar à Palavra através da escuta, pois a disponibilidade para escutar é o primeiro sinal com que se manifesta o desejo de entrar em relação com o outro”, salientando depois que “escutar a Palavra na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade: entre as muitas vozes que passam pela nossa vida pessoal e social, as Sagradas Escrituras tornam-nos capazes de reconhecer aquela que surge do sofrimento e da injustiça, para que não fique sem resposta. Entrar nesta disposição interior de recetividade significa deixar-se instruir hoje por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que «a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja». [1]
Depois, o Santo Padre lembra-nos que “a abstinência de alimentos é um exercício ascético muito antigo e insubstituível no caminho da conversão. (...) Portanto, é útil para discernir e ordenar os “apetites”, para manter vigilante a fome e a sede de justiça, subtraindo-a à resignação e instruindo-a a fim de se tornar oração e responsabilidade para com o próximo.”
Mas, há sempre um mas, não é assim?! Leão XIV também tem um mas nesta mensagem ao convidar-nos para uma “forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.”
Relação umbilical entre fé e zelo
Muito significativo que o Papa nos recorde esta relação entre escuta da Palavra de Deus e responsabilidade com o próximo. A nossa fé tem mesmo de nos levar a um zelo efetivo e afetivo.
Recentemente ao correr os dedos pelo feed de uma das minhas redes sociais, deparei-me com “uma fase do dia” do Portal 7 Margens. Dizia assim: “curioso, para não dizer trágico, como alguns cristãos demonstram uma sensibilidade litúrgica finíssima para rúbricas e idiomas mortos, mas uma surdez quase congénita para o grito dos vivos”. O autor é Marcos Luciano, pároco de Rabo de peixe.
Talvez pudéssemos terminar por aqui. Talvez pudéssemos colocar apenas reticências e deixar a narrativa em aberto. Terminemos antes recordando para onde apontam palavra e símbolo e voltemos à Mensagem do Santo Padre, pedindo “a graça de uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos. Peçamos a força dum jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.”
Luís Pedro de Sousa
Professor
[1] Exort. ap. Dilexi te (4 de outubro de 2025), 9.





















