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O VERBO E A SEIVA

A Fé é para a vida divina o que as raízes são para a árvore,
e os alicerces para um edifício.
GS/26/VI/80 A

Amanhã, 21 de março, celebramos dois gestos da criação da existência humana: a árvore e a poesia. Talvez tenha sido por isso que o calendário as juntou na mesma data. Ambas recordam que a vida precisa de raízes e de asas, de tronco sólido que alimenta e de palavras que se querem vivas. Os incautos dirão, à primeira vista, que são dois mundos muito diferentes — um nasce da terra e cresce em silêncio; o outro nasce da alma e cresce na voz. Todavia, quando olhamos de um modo mais profundo, percebemos que partilham a mesma matriz, pois um e outro procuram a luz. Ambos manifestam o desejo profundo de iluminar, de lembrar ao ser humano que faz parte de algo maior do que ele próprio. Ao celebrar duplamente este dia, honramos tanto o que cresce em silêncio como o que floresce em palavra.

Desde os primórdios da humanidade, as árvores foram mais do que simples elementos da paisagem: foram símbolos, companheiras, testemunhas.

Na Bíblia, por exemplo, elas surgem como sinais de aliança, metáforas de vida, presenças que falam sem voz e que revelam, na sua quietude, aquilo que muitas vezes as palavras humanas não conseguem nomear. Ao revisitarmos essas árvores antigas, encontramos nelas uma tradição que continua viva, uma poesia inscrita na própria natureza.

Com efeito, a árvore enquanto elemento natural, surge logo no princípio, no Livro do Génesis. No jardim do Paraíso, erguem-se a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Não são apenas plantas: são símbolos da liberdade humana, do limite e da escolha. A Árvore da Vida representa a comunhão plena com Deus, a vitalidade sem fim; a Árvore do Conhecimento recorda que a sabedoria exige responsabilidade. Assim, desde o início, a árvore é lugar de decisão tal como a poesia, que nos coloca diante da verdade das palavras e nos convida a escolher o que fazer com elas.

Considerando as especificidades das árvores como não lembrar a videira tão presente na simbologia bíblica?

A videira fala-nos de ligação, de comunidade, de fruto que se oferece. Ensina que a vida se constrói em interdependência, tal como os seus ramos que, entrelaçados, se sustentam uns aos outros. Da videira nasce o vinho — símbolo de alegria, de celebração, de encontro. Da poesia nasce também um vinho espiritual: palavras que aquecem, que aproximam, que nos fazem brindar à própria existência.

Há ainda a árvore que se torna sinal de dor e redenção: a cruz, feita de madeira, transforma-se no centro da fé cristã. O que era instrumento de morte torna-se na árvore da vida renovada pela palavra.

Celebrar a árvore é, portanto, celebrar a própria condição humana. Somos feitos de raízes — a família, a cultura, a fé, a história — e de ramos — os sonhos, os projetos, o futuro que ousamos imaginar. Precisamos de solo fértil, mas também de céu aberto. Precisamos de estabilidade, mas também de vento que nos desafie e nos desinstale. A árvore ensina-nos que crescer não é abandonar as raízes, mas aprofundá-las.

E que dizer da primavera que começa neste mesmo dia 21 de março? É apenas coincidência que a poesia e a árvore se encontrem quando a luz regressa com mais força? A primavera desenha uma espécie de poema coletivo escrito pela natureza: cada folha nova é uma sílaba métrica e cada flor uma exclamação de cor. Depois do inverno, a seiva volta a correr, como a inspiração que regressa após o silêncio. A árvore, aparentemente adormecida, estava apenas recolhida e preparava o milagre.

Amanhã, ao celebrarmos a poesia e a árvore, somos convidados a um duplo compromisso.

Cuidar das árvores reais, que purificam o ar da nossa casa comum e cuidar das árvores simbólicas — as palavras que plantamos uns nos outros. Uma palavra pode ser semente ou machado. Pode ferir como lâmina ou proteger como sombra. A responsabilidade é nossa.

Que cada um de nós seja, então, árvore e poeta. Que as nossas raízes se aprofundem na terra da compaixão e da justiça. Que os nossos ramos se abram em gestos de solidariedade. Que os nossos frutos sejam ações concretas de cuidado pelo planeta e pelo próximo. E que o nosso verbo, como a seiva, circule vivo, levando vida onde houver aridez

Ana Margarida Flor
Professora