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APÓSTOLO INQUIETO, MAS NÃO INCRÉDULO

Tomé, também chamado de Dídimo, era provavelmente pescador, como grande parte dos apóstolos. Sobre o seu chamamento, segundo os evangelistas Marcos, Mateus e Lucas sabemos que foi chamado de entre os discípulos de Jesus para constituir o grupo dos doze.

As referências bíblicas a seu respeito são breves, mas muito significativas, no que toca à uma tentativa descritiva da experiência da fé, tantas vezes segura, quanto inquieta. Quis a tradição e a religiosidade popular, sob a passagem bíblica de Jo 20, 24-29, fazer de Tomé o apóstolo da incredulidade. É de todos conhecida a expressão “Ver para crer como São Tomé”. No entanto, esta descrição pode ser um tanto ou quanto injusta, se não fosse o objetivo catequético que lhe possa estar subjacente, uma vez que os primeiros a acreditar na ressurreição de Jesus, todos, sem exceção, precisaram de  O Ver, para acreditar, ou pelo menos terem assistido a alguns sinais visíveis da sua ressurreição. “Vimos o Senhor”, disseram os discípulos a Tomé (Jo 20,25); “Vi o Senhor”, disse Maria Madalena aos apóstolos, após regressar da ida ao sepulcro de Jesus e tê-lo encontrado vazio, (Jo 20,18). Foi assim com as mulheres na manhã de Páscoa, foi assim com Pedro, aquele a quem fora dada a liderança do grupo e com João, o discípulo amado. Quer um quer outro, precisaram de ver com os próprios olhos o sepulcro vazio para acreditarem no que lhes haviam dito as mulheres, (Jo 20,3-10)

Por vezes a palavra e o testemunho parecem não chegar e é claro o confronto entre a grandeza do mistério e a incapacidade humana de o alcançar.

Não é assim, a nossa experiência como crentes!? Sem ver, sem tocar o mistério, como alcançá-lo!?
Na aventura da fé não nos basta o que nos disseram de Jesus, quem é, o que fez. A dado momento foi necessário ver e tocar o que nos disseram. Se não se vir, se não se tocar de alguma forma, seja com os olhos da carne seja com os do coração, a pessoa de Jesus, se não formos tocados ou olhados por Ele, pelo mistério de Deus, como podemos viver verdadeiramente a dimensão relacional da fé!? Dinâmica essencial e vital da experiência crente.

São Tomé é  exemplo disso, quando não vê e não toca o mistério, duvida: “Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser o meu dedo no lugar dos cravos e a minha mão no seu lado, não crerei” (Jo 20, 24-29), quando vê e alcança o mistério, está disposto a morrer por ele, “...vamos também nós, para morrermos com Ele. (Jo 11,16).

As poucas intervenções de Tomé, quase sempre no campo da incompreensão face ao mistério, resultaram em autênticos momentos de catequese para os apóstolos, naquele tempo, e para nós, hoje.

Em Jo 14, 1-6, a propósito do que Jesus revela aos discípulos sobre as moradas que o Pai tem preparadas, Tomé pergunta-lhe -“Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?” Ao que Jesus responde : “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao pai a não ser por mim.” Quanto teríamos perdido se Tomé não tivesse dúvidas, não se inquietasse com o que ainda não compreendia. Com uma questão tão simples, porventura um tanto ou quanto ingénua, tendo em conta o conteúdo da conversa, Tomé levou Jesus a revelar-se de uma maneira totalmente nova do que havia feito anteriormente. Antes revelara-se como o Filho de Deus, agora apresentava-se como o Caminho, a Verdade e a Vida que conduzem ao Pai.

Há para nós cristãos, melhor revelação e programa de vida!?

Que bela e profunda manifestação de fé, a de Tomé, quando a sua dúvida se desvanece ao ver e tocar Jesus -  ”Meu Senhor e Meu Deus!” (Jo 20, 26-28). Há melhor expressão para manifestar a nossa fé quando tocamos o mistério!? Talvez por isso, no momento eucarístico da consagração, em que celebramos o Mistério Pascal de Jesus, após a elevação do vinho e do pão, sejamos convidados a dizer as palavras de Tomé , “Meu Senhor e Meu Deus!

Tomé ensina-nos que não há que ter medo de colocar questões face ao que ainda não conseguimos compreender, uma fé humilde que não se questiona, não amadurece, não se torna adulta, pelo contrário estagna, corre o risco de se tornar dogmática, pouco viva. É do Papa Francisco, a seguinte afirmação: “É melhor uma fé imperfeita, mas humilde, que sempre regressa a Jesus, do que uma fé forte, mas presunçosa, que nos torna orgulhosos e arrogantes.” Por isso não receemos a dúvida e as incompreensões face ao mistério, quem sabe se, como diz Leão XIV “ a inquietação não é mesmo o lugar onde Deus habita”. A dúvida não é um estado, em si mesma, é um ponto de partida que nos desarma, mas nos potencia e desperta para o caminho.

Que as nossas inquietações nos conduzam ao mistério e no-lo permitam ver e tocar, quanto mais não seja com os olhos do coração, porque esse olhar nos basta.

Tozé Rocha