Ele exortava-nos a tomar a nossa cruz todos os dias e a não arrastá-la – a sermos mulheres de fé inabalável, sabendo que não estamos sozinhas, mas que Jesus carrega esta cruz connosco. Gailhac afirmava que Jesus, ao ser elevado na cruz, atraiu o mundo a si. Ele sabia que Deus se encontra onde a cruz está plantada e que, onde está a cruz, aí está Deus.
Tal como Gailhac, acredito que há salvação na cruz e acredito no poder da cruz – a sabedoria subversiva de Deus. É o poder de Jesus, que se entrega livremente por amor, que capacita os outros a darem também as suas vidas por amor. Jesus, na cruz, identifica-se com o sofrimento humano, com o pecado e com a escuridão. Jesus recusa colocar-se acima da humanidade. Ele aceita e abraça a experiência humana da alegria e da tristeza, do amor e da rejeição, do nascimento e até da morte.
Diarmuid O’Murchu argumenta que Jesus viveu o mistério pascal ao suportar o sofrimento na sua vida e no seu ministério, e não apenas na sua morte. Foi incompreendido, foi considerado infiel por curar ao sábado e comia e bebia com pecadores, prostitutas e cobradores de impostos. Na noite anterior ao seu doloroso caminho para o Calvário, na última refeição com os seus amigos, Jesus inclinou-se para lhes lavar os pés, como sinal de comunhão servidora no dom da sua vida por amor. Na sexta-feira, foi elevado na cruz no seu ato supremo de esvaziamento de si.
Eu creio num Jesus da Páscoa que, na sua vida Ressuscitada, conserva as feridas da crucifixão para mover o discípulo a trabalhar com paixão e compaixão para curar o sofrimento da humanidade ferida de hoje.
A crucifixão era uma morte reservada para os subversivos, para aqueles que ameaçavam o status quo. Esta foi a vida de Jesus – Ele afirmava que aqueles que não eram ninguém eram, na verdade, alguém, no lugar onde Deus habita.
A cruz é o preço profético de uma vida vivida de forma radical e plena. A cruz diz respeito ao modo radical de Jesus ser humano. A Cruz é simultaneamente horizontal e vertical – o modo como Deus se cruza com a humanidade. A cruz é a imagem que confirma que o amor de Deus e o amor ao próximo estão inseparavelmente entrelaçados. A cruz deve ser também a nossa posição enquanto discípulos.
Tal como Jesus, dirigimo-nos ao nosso Deus, Pai e Mãe, como a nossa força vital, o poder que nos permite trabalhar horizontalmente no nosso mundo pela justiça e pela paz, pela reciprocidade e mutualidade, pela solidariedade e comunhão.
O Deus crucificado da compaixão contraria a nossa fixação humana com o poder e a dominação. Jesus, no seu amor, morre impotente na cruz – o nosso Deus surpreendente fez uma opção pelos pobres – para ser um com aqueles que lutam pela vida, com os que estão nas margens, com aqueles que a sociedade considera “descartáveis”.
Não acredito na violência sacrificial, mas acredito na salvação da cruz, na qual Jesus abriu os braços livremente, em compaixão e misericórdia, para abraçar toda a criação com o amor pródigo de Deus.
Penso que a Sagrada Escritura sublinha este facto: toda a vida de Jesus foi uma vida entregue por amor. A pergunta que faço a mim mesma todos os dias é: de que modo estou a dar a minha vida por amor, para que todos tenham vida?
Ignacio Ellacuría, jesuíta espanhol-salvadorenho martirizado, deixou uma reflexão poderosa sobre a cruz: O que fiz eu para crucificar aqueles que sofrem? O que preciso de fazer para os “descrucificar”?
Como Religiosa do Sagrado Coração de Maria, vejo Maria como a primeira e mais fiel discípula de Jesus. Maria permaneceu junto do seu Filho ao pé da cruz, enquanto Ele experimentava o horror e a humilhação de uma execução pública — um criminoso político condenado. Penso em Maria e pergunto-me o que ela estaria a sentir — estaria a recordar as surpreendentes palavras do mensageiro de Deus, que lhe anunciara que daria à luz a salvação de Deus? Como poderia isto fazer parte da mensagem do anjo de que ela tinha encontrado graça diante de Deus e de que aquele que nasceria dela seria grande e Filho do Altíssimo? Lembrar-se-ia ela de segurar o seu pequenino Filho com o amor terno de mãe, num estábulo em Belém? Lembrar-se-ia dos pastores, vindos de um campo próximo, louvando a Deus, e dos magos vindos de longe, trazendo presentes para honrar o seu amado Filho? Lembrar-se-ia de Simeão, com a sua gratidão emocionada por ter visto com os seus próprios olhos a promessa divina de salvação cumprir-se? E quem lhe anunciara que o seu Filho seria rejeitado por muitos e que o seu próprio coração seria trespassado?
Creio que ao longo de toda a sua vida Maria repetiu o “sim” que deu livremente ao anjo. Acredito que ela deu o seu último “sim” ao pé da cruz, confiando na promessa da salvação de Deus, certa de que nada é impossível para Deus. Com Maria, acredito que aquilo que parecia treva e morte era a sábia “loucura” do amor, da compaixão e da salvação de Deus.
Irmã Cathy Minhoto, rscm





















