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«SILÊNCIO!»

«Tenho fome de silêncio.» – dizia com simplicidade o Irmão Roger, fundador da comunidade de Taizé.
O silêncio ou a falta dele é talvez uma das mais graves indigências do nosso tempo.

Temos necessidade de silenciar. Silenciar os lábios, a mente, o coração. Um dia sem silêncio é um dia em que somos sacudidos pelo mundo que nos rodeia e deixados à mercê do barulho e das vozes que nos habitam.

«O silêncio», escreve a monja beneditina Joan Chittister em “Illuminated Life”, «é a arte perdida numa sociedade feita de ruído.» Num mundo doente de barulho, bombardeado de informação, com excesso de estímulos e distrações, em que se usa e abusa da palavra, o silêncio é «uma forma de resistência à superficialidade das conversações globalizadas nos espaços saturados de mediação» (João Paulo Costa) e de manter a salvo a vida interior.

Há um «tempo para calar e tempo para falar» (Ecl 3,7). Silêncio e palavra não são realidades opostas, mas complementares. A palavra não existiria sem o silêncio que a precede, a segue e a sustenta. É preciso silêncio para ouvir a palavra, e a palavra verdadeira sempre se abre para um silêncio maior. Sem a prática do silêncio o nosso falar adoece, tende a tornar-se vazio e corre o risco de se tornar uma arma perigosa.

O silêncio não é meramente ausência de fala ou de ruído, mas de ego.

Calando, permitimos ao outro falar e dizer-se a si mesmo - condição da vida partilhável. O verdadeiro silêncio está cheio de escuta. Nele aprendemos a escutar as inquietações do nosso próprio coração, uns aos outros, Deus. Enquanto não nos aquietarmos e escutarmos, jamais saberemos o que realmente (se) passa – nem mesmo dentro de nós.

Para Jean Gailhac, «o silêncio, que parece uma coisa sem força e sem consequências, é o princípio de um sem número de maravilhas…» (GS/7/III/84/A). Em várias cartas que dirigiu às primeiras Irmãs – e dirige hoje a nós - repete com insistência: «Amem e pratiquem o silêncio.»

Não é fácil amar e praticar o silêncio. Assusta-nos porque nos pede para entrarmos em nós mesmos e coloca-nos cara a cara connosco próprios. Diz-nos aquilo que nos perturba. Lembra-nos do que ainda não resolvemos dentro de nós. Mostra-nos o nosso lado mais sombrio, do qual não há como escapar, que nenhum cosmético consegue mascarar, que nenhum título, poder ou dinheiro consegue curar.

O ruído protege-nos de nos confrontarmos a nós próprios. O silêncio deixa-nos apenas a nós mesmos como companheiros. Não para nos conduzir ao ensimesmamento, mas para descobrir a humildade de um "eu" refém da necessidade do Outro. Permite-nos reconhecer que somos (pelo menos) falíveis. Mostra-nos aquilo em que ainda nos podemos tornar e o quanto nos falta para o alcançar.

É no silêncio que aprendemos que a vida é mais do que aquilo que parece oferecer.

Há beleza, verdade e uma visão mais profunda do que o passado e mais ampla do que o presente, que só o silêncio pode revelar. O verdadeiro silêncio não é mutismo. É o lugar que antecede a voz de Deus. O silêncio é uma profecia!

«Oh! Se soubéssemos ouvir a Deus no silêncio e no recolhimento…!» - diz-nos o Pe. Gailhac (GS/26/XI/72/A*). Precisamos de aprender a silenciar a cacofonia do mundo à nossa volta e entrar em nós mesmos para esperar pela voz de Deus, que é sussurro, não tormenta. Precisamos do recolhimento que nos convida a dar lugar à presença da Palavra feita carne, daquele espaço de interioridade no qual damos ao Espírito a oportunidade de nos regenerar, de reanimar a nossa esperança, de rasgar futuro.

Amar e praticar o silêncio requerem coragem!

Urge uma pedagogia que não faça oposição entre palavra e silêncio, mas que parta do princípio de que a palavra gerada no silêncio fecundo é inspiração e impulso. Torna-se essencial exercitar o silêncio, a fim de discernir o que é importante daquilo que é inútil ou acessório, e reencontrar o sentido mais profundo da própria existência. Urge uma pedagogia do silêncio, enquanto arte de conduzir para o lugar da interioridade pessoal e comunitária, que convoque à responsabilidade pelo próximo.

Precisamos de recuperar a dimensão contemplativa da vida aberta pelo silêncio. Há que redescobrir o silêncio que fala a linguagem do coração, também a linguagem de Deus. O silêncio abrirá os nossos olhos e corações à criação de que somos parte e às situações concretas dos que sofrem. Far-nos-á menos cúmplices do mal e mais defensores da justiça. Levar-nos-á a julgar menos e amar mais. Impelir-nos-á a ser voz das vozes silenciadas. Permitir-nos-á ver a humanidade inteira dentro de nós e aí pormos fim à discórdia.

Deixaremos que o silêncio nos transforme e renove o mundo?

Ana Luísa Pinto, rscm