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A DENSIDADE DO CORPO [DE DEUS]

Levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
Do poema «Corpo» de Al Berto, em A Noite Progride Puxada à Sirga

– P. Paulo, porque temos nós de nos levantar depois de receber Jesus, quando o levam para a capela do lado?

As crianças têm uma atenção especial às coisas de Deus. A tal simplicidade que lhes faz sair o «louvor perfeito» (Mt 21, 16). Esta pergunta foi-me colocada no contexto de um encontro com crianças em que falávamos da importância da Eucaristia e a maravilha de receber Jesus em comunhão. As crianças têm esta capacidade de reparar em pormenores que têm o seu quê de interessante. No seu pensamento, se lhe foi dito, e bem, que ao comungar Jesus estava no seu interior, não fazia sentido levantar-se naquele momento. 

Depois de se distribuir a comunhão, a reserva eucarística é colocada no sacrário. Aí, em presença real, podemo-nos encontrar com Cristo Ressuscitado, na força e beleza da devoção ao Santíssimo Sacramento. No entanto, ainda voltando à criança, parece-me importante recordar que depois de se comungar somos nós o sacrário, dando ainda mais claridade ao sentido de sermos Templo de Deus, não etéreo, mas profundamente corporal. Deus assume corpo desde a humanidade e faz-nos participantes da sua divindade desde essa comunhão profunda com a nossa totalidade.

Isto é-me fascinante. Mais o é quando me debruço nas particularidades do corpo que normalmente não se trazem para o contexto ou diálogo religioso. Ou, quando tal é feito, reduz-se ao contexto moral, deixando de lado o existencial, o significativo para a vida total da pessoa. Dizia-me alguém em conversa que, quando se toca em temas sobre a sexualidade na adolescência ou no casal, é tudo tão, ora pudico, ora moralizado, ora abafado, ora amedrontado, ou, talvez pior, espiritualizado. A pessoa recordava também os risos infantis, mesmo entre adultos, ou os silêncios que falam mais de desconforto que outra coisa. 

A corporeidade é tão densa de Deus, que, a meu ver, há medo de ir mais fundo nessa relação.

O mais fácil é espiritualizar a realidade, num etéreo bonito e quase cândido. No entanto, Deus habita a matéria. Além de a ter criado, assume a existência em carne, em corpo, onde todo o sentir fala d’Ele. O medo de se falar de corpo de forma crua e objetiva surge por implicar o enfrentar da verdade pessoal, do prazer ao trauma, do deleite ao sofrimento, nas muitas dimensões das diferentes relações que todos vivemos. Isso pode ser de tal maneira duro, intenso e exigente que as muitas defesas internas, também provocadas por péssimos desajustes catequéticos sobre estes temas, impedem o caminho da liberdade. O medo também surge em preconceitos a desmontar, se se quer crescer também na fé. Falar de corpo é muito mais que falar de sexo. No entanto, falar de sexo no contexto de uma relação de casal pode ajudar a compreender luzes e sombra da relação. A vida espiritual séria e transformadora é profundamente corporal. 

Pensemos, por exemplo, no grande órgão mais exposto aos outros: a pele. Tem-se falado muito desse grande problema social do racismo. Mas, apesar de a cor ser importante para a reflexão, há algo mais fundo a perceber que torna a questão mais abrangente: o afeto. A falta de afeto é uma das principais causas do despontar da violência, seja em direção ao próprio, seja exteriorizada. A educação desajustada em nome de uma rigidez doutrinal, intelectual, moral, ideológica, que também já tenha sido recebida de herança, perpetua bloqueios na relação afetiva. Lendo sobre a importância da pele, de como os traumas também ficam registados na memória corporal, observando a realidade nos acontecimentos e no modo como se escreve por aqui, por ali e por aí, é gritante tudo a falar de afeto, ou melhor, da falta dele. O constante ataque e defesa, desde as pequenas coisas, às grandes, nas relações pessoais e institucionais, é sinal de que muito ainda se mantém nas estruturas primitivas do ser.

Atravessar os medos implica um ajuste afetivo.

É fundamental libertar a quantidade de crostas que se foram acumulando na pele, muitas em nome da sobrevivência, também na relação com Deus. Tirá-las, para encontrar a vida, dói. Mas, como se tem visto, outras dores, pessoais e sociais, tornam-se mais intensas quando esse trabalho individual não é feito. A dissociação da corporeidade, começando pela pele como zona de individualização, causa muitos estragos, inclusive na fé. Reconhecer as zonas de falta de afeto em si mesmo é caminho para a integração pessoal e social. Outro modo de dizer, o abrir-se à reconciliação de si mesmo em corpo com a ajuda do Corpo de Deus.

As crianças, na sua simplicidade, recordam-nos o caminho, também em perguntas habitadas de autenticidade que abrem à reflexão. Dá-se o regresso à humilde lama, modelada por Deus e insuflada pelo seu alento, que se abriu à vida d’Ele mesmo encarnado e que fez e faz tremer alicerces de realidade em corpo.

Pe. Paulo Duarte sj
Créditos da foto: Maru Ruesgas