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COM O OUVIDO DO CORAÇÃO

“Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito;
é preciso também que haja silêncio dentro da alma.”
Alberto Caeiro

“A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus, … Deus chama explicitamente o ser humano a uma aliança de amor, para que possa tornar-se plenamente aquilo que é: imagem e semelhança de Deus na sua capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro”. (Cfr. Papa Francisco, Dia das Comunicações Sociais, em 2022)

Escutar, uma arte em perigo de extinção

Um Padre do Deserto contava que a capacidade de escuta de um discípulo era tão grande que conseguia distinguir, à distância de muitos metros, uma agulha a cair. Hoje, pode acontecer-nos que, absorvidos pelo ritmo da vida moderna, pelo excesso de estímulos, de informação e pelas múltiplas tarefas, nem a poucos centímetros somos capazes de ouvir a vida a tombar.

Escutar é um dos maiores desafios da sociedade contemporânea. Nunca estivemos tão expostos a ruídos, mas tão carentes de escuta ativa, de presença e compreensão mútua. Quanto mais palavras bombardeiam a nossa escuta, menos estamos atentos a apreciar atentamente o seu significado, impacto e poder. Hoje, ouvimos mais do que nunca, mas escutamos menos do que nunca.

Do latim auscultāre, a palavra “escutar” significa prestar atenção, atribuir significado aos sons ouvidos, diferenciando-se do "ouvir" - perceção auditiva passiva.

“Escutar é diferente de ouvir. Quando caminhamos pelas ruas das nossas cidades, podemos ouvir muitas vozes e ruídos, mas geralmente não os escutamos nem interiorizamos, pelo que não permanecem dentro de nós”. (Papa Francisco – discurso de Natal à Curia Romana, 2023)

Na 56ª mensagem para o Dia Mundial das Comunicações o Papa Francisco descreve a escuta como uma arte e uma exigência de amor que corre o risco de desaparecer no mundo ruidoso e apressado em que vivemos: “estamos a perder a capacidade de ouvir a pessoa que temos à nossa frente, tanto na teia normal das relações quotidianas como nos debates sobre os assuntos mais importantes da convivência civil. Ao mesmo tempo, a escuta está a experimentar um novo e importante desenvolvimento no campo comunicativo e informativo, através das várias ofertas de podcast e chat áudio, confirmando que a escuta continua essencial para a comunicação humana.”

Clarice Lispector faz como que um pedido ao dizer: “Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo, porque eu mesma não posso.”

“Precisamos de uma iniciação ao silêncio, que é o mesmo que dizer uma iniciação à arte de escutar”.O silêncio é lugar de diálogo, de encontro connosco próprios, com os outros e com o mundo. É no silêncio que descobrimos melhor quem somos e quem estamos chamados a ser. (Cfr. cardeal Tolentino Mendonça, in Sete Margens -13/04/2025)

A arte de escutar

Um mestre tinha doze discípulos e o seu preferido era o que se ocupava da caligrafia. Isso gerava problemas aos restantes, que não percebiam a razão daquela predileção. Então o mestre decidiu colocá-los à prova. Um dia, em que estavam todos ocupados a trabalhar, cada um na sua cela, o mestre chamou: “Meus discípulos, vinde a mim.” O primeiro que apareceu foi o discípulo calígrafo e só depois, pouco a pouco, chegaram os outros. Então, o mestre levou-os à cela do calígrafo e disse-lhes: “Vede, ele estava aqui a desenhar a letra ómega e interrompeu o desenho de uma pequena letra para acorrer ao mestre.” Então os discípulos responderam: “Percebemos agora. Amas aquele que verdadeiramente te escuta.” (História dos Padres do Deserto)

Saber escutar é uma arte e uma missão. A escuta não se faz apenas com o ouvido exterior, não é automática, é uma arte que precisa de ser trabalhada, exige treino e a mobilização das nossas forças vitais.
Roberto Crema defende que “Mudar o Mundo é Mudar o Olhar” e toda a mudança começa pela escuta.  Precisamos de aprender a escutar o corpo, a respiração, os ditos e não-ditos, o coração, os sonhos, o silêncio, a voz interior, a natureza, o que ainda não se ouviu, viu ou presenciou. Escutar é silenciar-se, é ter a ousadia de sair de si, de não ser, para estar disposto a acolher o outro e a nós mesmos e, assim, transformar a existência numa obra de arte. 

Escutar com o ouvido do coração

O verdadeiro órgão da escuta é o coração, porque é aí que sentimos o desejo de estar em relação com os outros e com o Outro.
As palavras iniciais da Regra de S. Bento fazem um poderoso convite aos discípulos: “Escuta, ó filho, os ensinamentos do mestre e estende-lhes o ouvido do teu coração”. Inspirado na Regra de São Bento o Papa Francisco afirma que “Escutar com o coração” é essencial para a comunicação e as relações humanas.

Hoje S. Bento poderia pedir-nos para adotarmos este processo de “escutar com o ouvido do coração” nas nossas decisões, nas nossas relações e nas nossas respostas à variedade de situações e questões que nos são colocadas. Isso faria a diferença a todos os níveis da existência humana: na família, no ambiente de trabalho, entre os amigos, entre os líderes mundiais, entre as nações em guerra, entre os países que procuram soluções pacíficas. (cfr. Gregory John Frederick Polan)

A verdadeira escuta envolve a pessoa toda; exige acolhimento, empatia e ausência de preconceitos. Escutar é inclinar-se para o outro e dedicar-lhe a atenção; é oferecer um ombro onde o outro possa apoiar a mão, para, rapidamente, se levantar. Poder ser escutado relança-nos no caminho.

Escutar é convidar sem possuir, é não interromper o milagre de uma voz que se descobre a si mesma ao pronunciar-se, é uma arte que se pratica com o corpo inteiro: com a pele, com a respiração, com esse pequeno suspiro que diz ao outro “estou a cuidar de ti, continua”. Escutar é tornar-se ninguém para que o outro possa ser, é abrir uma janela por onde entra o outro, com as suas palavras e os seus silêncios. (cfr. Hermann Broch)

Aquele que escuta outra pessoa tanto ou mais que a si mesmo, sabe recolher tesouros em todos os recantos e de todos os minutos da vida. Desenvolve a observação, a paciência, o respeito e a capacidade de pensar. (cfr. Delia S. Guzmán)

O conto "Angústia", de Tchekhov apresenta um texto brilhante sobre o valor da escuta. Descreve a história de um cocheiro - Iona - que perdeu um filho e não encontra, entre os humanos, ninguém disposto a confortá-lo. “Sente a necessidade de contar como adoeceu o filho, os seus sofrimentos, o que disse antes de morrer e como morreu (...). Sente a necessidade de descrever o funeral, de contar quando foi ao hospital procurar as roupas do defunto. Na vila ficou a filha, Aníssia (...). Quer falar também dela (...)” mas ninguém escuta. O cocheiro dirige-se então ao seu cavalo, e enquanto lhe dá de comer, começa a expor-lhe, num longo monólogo, tudo aquilo que viveu. As últimas palavras do conto de Tchekhov são estas: “O cavalo continuou a mastigar, enquanto parecia que escutava, porque soprava na mão do seu dono... Então Iona, o cocheiro, animou-se e contou-lhe tudo”. (Cfr. José Tolentino Mendonça. Assis, Itália, 19.9.2016)

Escutemos com o ouvido do coração!

Maria Alice Lopes dos Santos, rscm