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SANTOS AO PÉ DA PORTA

É mais ou menos comum comover-me com acontecimentos ligados à Igreja. Seja porque vi na televisão, ou porque li algures, ou então, no melhor dos casos, porque eu estive lá.

E eu estive na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, de que tenho tantas saudades, onde vivi dois momentos daqueles que ainda hoje me comovem: a extraordinária alegria da fé como nunca a tinha vivido, não daquela maneira esfuziante, avassaladora, assim que a eucaristia no Parque Eduardo VII terminou; e, quase nos seus antípodas, a belíssima Via Sacra, que o cansaço e o desgaste acumulados fizeram com que desabasse no abraço seguro do Xico, o amigo e companheiro de tantas jornadas! Duas memórias, dois momentos daqueles que acampam cá por dentro, e aí permanecem.

Dos acontecimentos que apenas vi na televisão, na distância geográfica, mas não afetiva, guardo também dois. O primeiro é um dos mais marcantes da história recente da Igreja: a caminhada cinzenta e solitária - espelhando na perfeição a cor e a dor que as nossas almas viviam na altura - do Papa Francisco em direção ao altar improvisado na Praça de São Pedro, naquele entardecer de 27 de março de 2020, em plena pandemia. Ainda hoje, quando revejo essas imagens, sinto o sabor amargo da tristeza profunda. E o outro aconteceu há cerca de um mês, no Stade de France, ao ver o exército de santos franceses irromper pelo meio daquela enorme multidão de jovens, colocando-lhes a mão no ombro e recordando-nos, a todos, do legado que carregamos com as nossas vidas. Tratando-se, evidentemente, de um enorme momento cénico, não seixa de ser, no entanto, profundamente litúrgico, prenhe de sentido, pleno de significado, e que, inesperadamente, me comoveu. Inesperadamente porque sempre tive um problema com santos, sobretudo com os santos de papel passado, como, mais recentemente, a euforia folclórica em Balazar me confirmou.

A verdade é que nunca acreditei em pessoas especialmente abençoadas por Deus.

Se eu, que sou pai de cinco e avô de dois, sempre os amei com a mesma intensidade máxima - sempre na redline como nos carros de rali - como seria possível que Deus amasse mais uns filhos que outros, a ponto de o Espírito Santo dedicar um tratamento de primeira a uns e reservar o refugo a outros? Nunca acreditei que um Pai minimamente em condições tivesse filhos e enteados, e por isso torço-me todo quando oiço dizer (e oiço tantas vezes!) que somos filhos adotivos de Deus mas que filho mesmo é Jesus. Quem diz isso nunca percebeu nada da imensidão do amor, no qual a biologia é pouco mais que absolutamente irrelevante. Como se eu amasse os meus filhos ou os meus netos de maneira diferente, com um medidómetro na mão! Ou se aos filhos adotivos se dedicasse um amor de segunda. Ou como se não se amassem os sobrinhos ou os filhos dos amigos, ou os próprios amigos! Limitamo-nos a amá-los, a todos, na imensidão de nós mesmos, na melhor das hipóteses como o Pai ama, como Jesus ama: ultrapassando o limite de nós próprios.

A primeira lufada de ar fresco nestas coisas da santidade chegou-me com o n.º 7 da Gaudete et Exsultate: "Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade «ao pé da porta», daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus». Não imaginam a minha alegria! Fiquei tão feliz! Porque com alguns desses santos ao pé da porta rezo eu todos os dias! Na verdade, vou alternando entre eles nas minhas conversas e orações, porque não me lembro de todos eles todos os dias em todos os momentos. Mas quando preciso de recordar alguém que entregou a vida na alegria do mais completo dos anonimatos rezo com a Tia Micas, quando sei que meto água da grossa rezo com o meu sogro - que estava sempre pronto a dar-me nas orelhas - quando me enterneço com alguma situação divertida e disparatada rezo-a na companhia do riso malandro da minha avó…

E rezo tantas vezes com o nosso querido Gailhac! Por muitos motivos. Para começar porque, assim como a Tia Micas, o meu sogro e a minha avó e todos os outros, com quem rezo ou não, acredito firmemente que está junto do Pai. Depois, porque admiro profundamente a sua vida, a sua entrega dócil e firme - por vezes tenho tanta pena de não o ter efetivamente junto de mim! – e isso inspira-me, sobretudo quando a coisa não está fácil e ando à procura das soluções possíveis. E penso também muitas vezes nele, profundamente grato, agradecendo e louvando a sua vida quando, no Raiz, vejo aquela malta toda a brincar e a estudar, a construir o seu futuro, e sei que ele está feliz por fazer tantas pessoas felizes.

Estes santos são os santos com quem rezo.

Porque são estes os que me inspiraram, em algum momento, muitos deles sem me conhecerem, mas que num determinado dia, num determinado momento, numa determinada situação, me fazem recordar que a bondade não escolhe pessoas especiais ou momentos especiais ou lugares especiais. A bondade torna-nos especiais, porque transborda do especialíssimo amor que o Pai tem por cada um dos seus filhos, por cada um de nós, a quem conhece pelo nome e pelo projeto de felicidade que sonhou, com nome próprio, à medida de cada um, nas circunstâncias de cada um, de acordo com os dons que cada um acolhe e entrega. E essa entrega é o que santifica a nossa própria vida, porque brota desta consciência boa que todos somos filhos amados pelo Pai, e que não há filhos de primeira e segunda.

E sim, acredito na comunhão dos santos.

Acredito que quando estivermos, todos todos todos - mesmo todos, porque acredito que o Seu Amor é maior que a nossa estupidez - junto do Pai, estaremos em festa porque, finalmente, conheceremos plenamente o dom do amor, da alegria e da felicidade total. Porque um Pai nunca deixa de esperar o regresso do seu filho na soleira da porta, desejoso de o abraçar. Por muito estroina que ele tenha sido. Eu, pelo menos, aposto a minha vida nessa espera.

José Pinho
Educador