É verdade, príncipe, que uma vez disseste que a beleza salvará o mundo? Céus! O príncipe diz que a beleza salvará o mundo! E eu afirmo que ele tem ideias tão brincalhonas por estar apaixonado! Senhores, o príncipe está apaixonado. Adivinhei isso no momento em que ele entrou. Não core, príncipe; tenho pena de si.
Que beleza salvará o mundo?”
Fiódor Dostoiévski (1869). O idiota.
Interrogação poderosa, que ressoa profundamente e com uma urgência renovada, considerando a realidade contemporânea. Dostoiévski, ortodoxo, associava a beleza à figura de Cristo, como a forma máxima de amor e sacrifício que resgata o mundo. As interpretações desta frase sugerem, precisamente, que a beleza não é, para o autor, apenas compreendida como estética, mas como expressão da verdade, do bem e do amor divino, tendo o poder de redimir a humanidade da vulgaridade e do sofrimento.
A Beleza salvará o Mundo? É, ou será, um desafio? Permitam-me partir deste pressuposto.
Habitamos espaços e tempos complexos e insidiosos, que mascaram a verdade e a beleza da condição humana.
Enquanto educadores, não podemos ficar indiferentes e acomodados, antes pelo contrário; é o incómodo que nos deve convocar a responder, de forma quase missionária, a este desafio: fazer da beleza uma experiência de verdade e bem, o meio e o fim das nossas escolhas e (inter)ações. E como fazê-lo sem evocar a arte? Como fazê-lo sem trazer para as práticas educativas a arte, a busca do belo como forma e conteúdo para responder a esta emergência antropológica: a salvação do mundo?!
A ligação entre o Belo e o Bem constitui um pilar da filosofia clássica, onde beleza, bondade e verdade convergem numa unidade transcendental.
Sob esta ótica, o Belo é a sublimação do Bem, sugerindo que a verdadeira beleza não é uma estética superficial, mas sim uma força que eleva a alma, que nos harmoniza e aproxima da nossa essência ética. A arte surge, então, como a linguagem privilegiada para esta união. Se o Belo é a sublimação do Bem, a arte dá corpo a essa sublimação. Não se limitando a representar o mundo, mas sim a revelá-lo na sua dimensão mais profunda, servindo de ponte entre a verdade ética e a perceção sensível. A indissociabilidade entre o Belo e o Bem redefine o papel da arte na educação. A arte deixa de ser um mero exercício técnico para se tornar um exercício ético de busca pela verdade, bondade, consciência e compreensão humana.
A educação pela arte, enquanto abordagem pedagógica, utiliza as diversas linguagens e expressões artísticas (música, teatro, pintura, escultura, dança...) como alicerce para o desenvolvimento integral dos alunos, promovendo a liberdade de expressão, o jogo e a aprendizagem prazerosa, bem como o pensamento crítico, criativo e ético. Mais do que a técnica ou a formação de artistas, o que está em causa é a formação humana: uma via para elevar a personalidade e a espiritualidade, resgatando a sensibilidade e a interioridade que permite, por um lado, expressar o que não se sabe dizer por palavras (o indizível) e, por outro, ver para além do imediato (o invisível). Neste contexto, tal como nos ensina Dom Tolentino Mendonça, educar pela arte é valorizar o espanto e a procura permanente da beleza no quotidiano, numa forma essencial de 'religar' o humano ao divino.
Simultaneamente, somos desafiados a educar para a arte (enquanto fim em si mesma), reconhecendo que esta revela, afinal, aquilo que nos salvará.
Num mundo saturado de imagens falsas e estímulos fugazes, enquanto educadores, compete-nos ensinar a 'demorar-se' num exercício do olhar que desmascara a verdade escondida no quotidiano e permite ver a grandeza das pessoas e das coisas. É assumir o compromisso de evocar e materializar o invisível e o indizível, reconhecendo a beleza onde ela parece ser/estar esquecida. Trata-se, sobretudo, de interrogar o mundo, a vida e as pessoas com liberdade e empatia, descobrindo que a experiência estética é também redenção e revelação: Deus brilha através do Belo!
Marta Uva





















