Num mundo onde a produtividade é frequentemente glorificada, parar pode parecer um luxo - ou até um erro. Mas cada vez mais especialistas em saúde mental e bem-estar apontam para a importância vital do descanso, não apenas como pausa, mas como parte essencial do progresso.
O tempo livre é muitas vezes confundido com o simples ato de não trabalhar. No entanto, ele pode ser um espaço fértil para a criatividade, a reflexão e o autoconhecimento. Quando nos libertamos da pressão constante de produzir, abrimos espaço para que novas ideias surjam e para que o corpo e a mente se regenerem. Acordar sem despertador, deixar o sol entrar devagar pela janela e ouvir o silêncio como quem escuta uma melodia esquecida, é um cenário fértil para a renovação necessária.
O tempo, agora dilatado, estende-se como um campo aberto, sem pressa, sem exigências.
Esta sensação de que “o tempo estica” durante períodos de descanso prolongado é real e está ligada à redução do stress e ao aumento da atenção plena. Quando desaceleramos, vivemos com mais presença, e isso transforma a nossa relação com o tempo. Cada manhã apresenta-se como uma página em branco, e cada tarde, como um voo suave sobre paisagens interiores que há muito não eram visitadas.
Assim como os aviões precisam de tempo para levantar voo e aterrar com segurança, também nós precisamos de momentos de transição. Tal como um pássaro que levanta voo apenas depois de ter descansado as asas, também nós devemos respeitar os ciclos naturais do nosso corpo e mente. Não se trata apenas de parar ou avançar, mas sim de saber quando acelerar e quando abrandar. Parar é, acima de tudo, um ato de escuta. O descanso torna-se um tempo de encontro com o essencial - com os nossos valores, com os nossos afetos, com o que nos move.
Neste tempo dilatado que se aproxima, encontramos lugares que podemos viver enquanto turistas ou como peregrinos.
O turista procura ver, consumir, acumular experiências. É uma pausa, sim, mas muitas vezes tão cheia de movimento que pouco espaço sobra para o verdadeiro descanso ou para o encontro. Já o peregrino caminha com outro ritmo. Não está apenas a deslocar-se no espaço que o rodeia, mas também dentro de si. O tempo de férias vivido como peregrinação é um tempo de escuta, de presença, de partilha. É quando se caminha lado a lado com os filhos, se conversa sem pressa com os pais, se reencontra um amigo com tempo para ouvir e ser ouvido.
Neste tempo que se alarga, longe das rotinas e das distrações, as relações ganham profundidade. O descanso torna-se um lugar de reencontro com os outros e com o que realmente importa. E é nesse espírito de peregrino que as férias deixam de ser apenas uma pausa e passam a ser um verdadeiro regresso a casa.
Fátima Santos
Professora