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ÁGUA QUE UNE

Esta semana tem dois acontecimentos religiosos especiais.

No passado domingo celebrámos a festa do Batismo de Jesus e no dia 18 começa uma semana de oração pela unidade dos cristãos. E vale a pena falar disto.

Para o cristão o sacramento mais importante é o batismo. Não é possível ser verdadeiramente cristão sem estar batizado. Porque Jesus Cristo, antes de subir aos céus, pediu aos apóstolos que fossem por todo o mundo anunciar o Evangelho a toda a gente e acrescentou que quem acreditasse nele e fosse batizado seria salvo (Marcos 16, 16). Ser batizado dá-nos então três coisas: faz de nós filhos de Deus, garante-nos a salvação e passamos a fazer parte da grande família dos cristãos, dos que acreditam em Jesus e o seguem. Na Igreja o nosso maior título não é tanto aquilo que fazemos (ser padre, ser religiosa, ser acólito…) mas a nossa condição, o que somos: sou batizado. Como costumamos dizer, o batismo é a porta dos sacramentos, ou seja, é por ele que podemos ter acesso a todos os outros (por exemplo, não se pode ser crismado sem ser batizado…). Por isso, o dia do nosso batismo é muito importante. Todos nós deveríamos saber o dia do nosso batismo e celebrá-lo como um dia de aniversário. Da mesma forma que no nosso dia de anos celebramos a alegria de viver, no dia do nosso batismo celebramos a alegria de pertencer a Deus e de o ter na nossa vida. Como disse o Papa Francisco num encontro: “É um aniversário que merece ser lembrado, celebrado e agradecido. Sabes a data do teu Batismo? É um dia para celebrar, porque é o dia do teu nascimento como cristão.”

Os cristãos são, então, uma grande família.

Contamos todos aqueles que acreditam e seguem a Cristo e estão a ele ligados pelo batismo. Estima-se que um terço da humanidade (cerca de 2,5 bilhões de pessoas) é cristã. Mas nem todos são católicos. Ao longo da história do cristianismo houve várias separações, o que fez com que actualmente os discípulos de Jesus, embora todos unidos a ele e nele pelo batismo, vivam separados entre eles, em várias confissões cristãs. Estamos unidos a Cristo, mas separados uns dos outros. Sabemos que qualquer divisão em qualquer grupo não é positiva (uma família dividida, uma turma dividida…). Por isso é preciso encontrar caminhos que nos unam, que nos façam crescer na unidade. Há muitas iniciativas comuns que reforçam os laços de unidade. Por exemplo, acções de solidariedade entre cristãos (um trabalho comum no cuidado dos mais pobres, na promoção dos direitos comuns), empenho comum nas áreas da educação… ou seja, os cristãos, ainda que pertençam a igrejas cristãs diferentes podem unir-se, por causa da mesma fé em Cristo, para fazer o bem.

Uma iniciativa comum, que já vem do século XVIII, que surgiu das várias Igrejas cristãs, foi a necessidade de rezar durante uma semana pela unidade de todos os cristãos. Podemos ter acções conjuntas, mas também podemos rezar pela unidade de todos os cristãos e, mais, rezar em conjunto por esta intenção (chamam-se a estes encontros orações ecuménicas). Não tanto para tentar voltar a ser uma única Igreja, porque há tradições e caminhos diferentes, mas de todos tomarmos consciência de que, como baptizados devemos viver unidos a Cristo. 

Cristo tem de ser factor de união e nunca de divisão. Mais importante que que estar a ver o que nos separa devemos percorrer o caminho a partir do que nos une.

Para este ano de 2026, o tema desta semana de oração foi tirado de uma carta de São Paulo aos cristãos de Éfeso (4, 4): “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança”. Vemos aqui a importância da unidade. Temos de perceber que a unidade não é só um ideal nosso, mas um pedido de Jesus, que está no centro da nossa identidade cristã. Nós, os que pertencemos a Cristo pelo baptismo, formamos um corpo, e que neste corpo, todos somos importantes e necessários.

Uma última consideração: porque é que é sempre de 18 a 25 de Janeiro? A escolha desta data está relacionada com o dia 25 de Janeiro em que a Igreja celebra a festa da conversão do Apóstolo São Paulo. Esta festa diz-nos que assim como São Paulo se converteu a Cristo, também nós, cristãos, temos o dever de nos converter a Cristo, desejando e promovendo a unidade. Portanto, ser cristão não é só ser baptizado. Ser cristão é, além de ser baptizado, ter consciência que pertence à Igreja e que deve promover sempre a unidade entre os cristãos. Ser cristão é viver unido a Cristo e em Cristo, não numa relação pessoal e única (egoísta) mas numa dimensão universal, em que não há melhores nem piores, mas todos como se fossemos um só coração, uma só alma, um só corpo.

Frei José Filipe Rodrigues, op