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A FRAGILIDADE HUMANA

Frágil é Vida
e mais frágil que a Vida só nós
enquanto somos Vida

Almada Negreiros, “A Torre de Marfim Não É de Cristal”

Ser frágil

Conhecemos todos os diversos dísticos colocados nas embalagens que contêm peças de vidro ou de cerâmica, objectos quebráveis. Dizem “frágil”. Em línguas diferentes. Às vezes com um desenho de um copo já quebrado. Não raro também uma explicitação: “cuidado”. E a indicação, frequentemente gráfica, de um “para cima” e de um “para baixo”1.
Frágil quer dizer isto mesmo: parte-se.
Ora a fragilidade diz-nos respeito a todos.

Fragilidade e símbolo

Na antiga Grécia, para obter um símbolo, as duas pessoas que celebravam uma aliança, um pacto, partiam em duas uma peça de cerâmica. Cada um deles ficava com uma parte que (só) encaixava perfeitamente na outra. Os seus descendentes – e herdeiros – podiam fazer valer a aliança estabelecida, pela verificação dessa unidade restabelecida pelas duas partes “simbólicas”.

Para haver um símbolo tinha de existir uma fractura. Sem fragilidade, o mundo simbólico é-nos inacessível.

No que diz respeito aos discípulos de Jesus, não há Eucaristia sem pão partido2.
O pão é realidade de todos os dias, realidade-símbolo do que sustenta a nossa vida. Ora Jesus diz-nos que a sua vida é um pão partido, dado a todos para a vida de todos. Do pão da contenda ao pão partido. O que propõe uma interpretação da vida e da História, um significado, um sentido que atinge no íntimo as consciências: não podemos partir o mesmo pão sem vivermos a vida como um dom. Não podemos viver uma vida fechada, blindada. O pão partido, o coração aberto por uma lança, o sangue derramado: realidade-símbolo do dom da vida que faz viver. Bem-aventurados os que se dão aos outros. Os que dão aos outros o seu frágil “eu” partido, como o pão.

«Os doentes, os frágeis, os pobres estão no coração da Igreja», afirmava o Papa Francisco na Mensagem para o Dia Mundial do Doente de 2024. Quando estava hospitalizado, em março de 2025, dizia «sentir no seu coração “a bênção” que se esconde na fragilidade», agradecendo a atenção com que cuidavam dele.

A compaixão do Samaritano

Com este título, a Mensagem para o Dia Mundial do Doente deste ano (11 de fevereiro) do Papa Leão XIV volta a propor-nos «a imagem, sempre atual e necessária, do bom samaritano, a fim de redescobrirmos a beleza da caridade e a dimensão social da compaixão, e chamar a atenção para os necessitados e para os que sofrem, como são os doentes».

O Santo Padre percorre a parábola que Lucas nos apresenta (cf. Lc 10,25-37) «com a chave hermenêutica da Encíclica Fratelli tutti, do […] Papa Francisco».

Falando do «dom do encontro», diz Leão XIV: «podemos afirmar, com Santo Agostinho, que o Senhor não quis ensinar quem era o próximo daquele homem, mas de quem ele devia tornar-se próximo. Na verdade, ninguém é próximo de outro enquanto não se aproxima voluntariamente dele. Por isso, fez-se próximo aquele que teve misericórdia»3.

Já em 2023, na Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Doente, afirmava: «Trata bem dele» (Lc 10,35) é a recomendação do samaritano ao estalajadeiro. Mas Jesus repete-a igualmente a cada um de nós na exortação conclusiva: «Vai e faz tu também o mesmo». Como evidenciei na encíclica Fratelli tutti, «a parábola mostra-nos as iniciativas com que se pode refazer uma comunidade a partir de homens e mulheres que assumem como própria a fragilidade dos outros, não deixam constituir-se uma sociedade de exclusão, mas fazem-se próximos, levantam e reabilitam o caído, para que o bem seja comum» (n. 67). Efetivamente «fomos criados para a plenitude que só se alcança no amor. Viver indiferentes à dor não é uma opção possível» (n. 68).

Vida quotidiana e fragilidade

Queremos assumir “como própria a fragilidade dos outros”. Sabendo que, na maior parte das vezes, à nossa volta ocorrem só coisas sem importância. Pelo menos aparentemente. E vivemos a nossa vida quotidiana com os nossos familiares, os nossos amigos, os nossos colegas de profissão, com este sentimento. Que é também experiência de fragilidade. Mas, como diz Karl Rahner, «é justamente nessas coisas que Deus nos chama a sermos guardiões do que é sagrado, do que é grande, da graça de Deus dentro de nós e à nossa volta»4.

Saibamos viver segundo esse dinamismo do Reino, transformando, nas pequenas coisas do quotidiano, esta terra em que vivemos num mundo mais justo e mais fraterno. Juntos.

Pe. José Manuel Pereira de Almeida


1 J.M. Pereira de Almeida, “Bem-aventurados os portadores de brechas porque deixarão passar a luz”, in Id (Org.), O pensamento social do Papa Francisco, Lisboa 1916, Ed. Cáritas, 161.
2 Ibidem, 167.
3 Cf. Santo Agostinho, Sermão 171, 2; 179 A, 7.
4 K. Rahner, Prediche bibliche, Roma 19167, Ed. Paoline, 13.