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CUIDAR E ALIMENTAR A ESPERANÇA

Assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental é, antes de mais, um convite a parar. A parar e a olhar para dentro; a pensar como nos sentimos; a reconhecer que cuidar da saúde mental não deve acontecer apenas quando surge um problema.

A saúde mental permite-nos lidar com os desafios da vida, realizar as nossas potencialidades, aprender e trabalhar bem, contribuir ativa e positivamente para a nossa sociedade. Tem, por isso mesmo, um valor intrínseco e instrumental e é parte integrante do nosso bem-estar.

Tal como cuidamos do nosso corpo, também precisamos de cuidar da nossa vida emocional, dos nossos relacionamentos, da forma como lidamos com as adversidades (que num breve instante podem surgir na nossa vida) e da esperança com que olhamos para o futuro.

Se olharmos para os dados atuais sobre esta temática, rapidamente percebemos a dimensão deste desafio! Em setembro de 2026 a Organização Mundial da Saúde estima que, em todo o mundo, mais de mil milhões de pessoas vivam com uma perturbação mental, encontrando-se as perturbações de ansiedade e depressivas entre as mais frequentes. E falamos também de crianças e jovens. A OMS estima que um em cada sete adolescentes entre os 10 e os 19 anos viva com uma situação de saúde mental.

Quando falamos de saúde mental, falamos, portanto, de uma realidade que atravessa famílias, escolas e comunidades.

A saúde mental não é por isso um assunto distante, reservado a algumas pessoas ou apenas aos profissionais de saúde. É uma dimensão fundamental da vida de todos nós!

Cuidar da saúde mental começa, muitas vezes, com gestos aparentemente simples: reconhecer que não estamos bem; falar sobre aquilo que nos preocupa com quem confiamos; descansar; cultivar relações significativas; aprender a lidar com as nossas emoções; permitirmo-nos pedir ajuda e procurar apoio quando as dificuldades ultrapassam aquilo que conseguimos gerir sozinhos. Significa também criar ambientes onde seja possível falar sem medo de julgamento.

É precisamente aqui que a oração deste mês do Papa Leão XIV, dedicada à pastoral da saúde mental, ganha particular relevância. Nela, o Papa recorda as pessoas que vivem com ansiedade, depressão ou outras dificuldades de saúde mental e chama a atenção para as “feridas silenciosas” que muitas vezes ninguém vê. Ao mesmo tempo, reconhece a responsabilidade de todos na construção de comunidades cristãs mais atentas e acolhedoras. Pede que sejamos uma “casa aberta”, “que acompanha e não exclui”, que “escuta sem julgar” e que “se aproxima sem medo”.

Esta mensagem coloca-nos perante uma pergunta importante: o que posso eu fazer pela saúde mental de quem está ao meu lado?

Nem sempre precisamos de ter respostas certas. Nem sempre precisamos de saber o que dizer. Por vezes, cuidar começa simplesmente por reparar: perceber que alguém está mais calado do que é habitual e perguntar “como estás?”. Escutar sem apressar nem desvalorizar aquilo que o outro sente, mesmo que numa tentativa de que o outro não o sinta como algo tão avassalador. “Queres contar-me como te tens sentido?” ou “não precisas de passar por isto sozinho”, são palavras que transmitem esta disponibilidade genuína de quem acolhe, sem reservas nem julgamentos.

Mas atenção: cuidar do outro não significa substituir a ajuda profissional ou assumir responsabilidades que não nos pertencem. Significa não ficar indiferente. Significa compreender que as relações podem ser fatores de proteção e que uma comunidade atenta pode diminuir o isolamento, combater o estigma e facilitar o acesso à ajuda.

Esta perspetiva encontra também um lugar especial na experiência cristã. A fé não nos promete uma vida sem dificuldades, nem elimina automaticamente o sofrimento psicológico. A esperança cristã é outra coisa: é a confiança de que a nossa história não fica reduzida ao momento difícil que estamos a viver e de que a mudança é possível, mesmo quando não conseguimos ainda perceber como.

Ter esperança não significa negar a dor.

Significa poder olhar para a dor sem acreditar que ela define para sempre quem somos ou aquilo que podemos vir a ser. É acreditar na possibilidade de crescimento, de transformação, de recomeço e de encontro. É reconhecer que podemos precisar dos outros e que aceitar ajuda não é sinal de fraqueza.

Num tempo em que vivemos tantas vezes sob pressão (do tempo, das tarefas, de um desempenho a cumprir), importa recuperar uma ideia essencial: ninguém deve ter de cuidar da sua saúde mental completamente sozinho. Precisamos de profissionais competentes, de famílias disponíveis, de escolas atentas, de comunidades que acolham e de relações onde exista espaço para a vulnerabilidade e para a compaixão.

O Dia Mundial da Saúde Mental pode ser, assim, uma oportunidade para cada um de nós fazer uma pequena mudança: olhar mais para si, olhar mais para os outros, escutar melhor, pedir ajuda quando necessário e oferecer presença, quando alguém dela precisa.

Porque cuidar da saúde mental é também reconhecer em cada pessoa uma dignidade que permanece, mesmo nos momentos de maior fragilidade.

Mónica Borges de Pinho
Psicóloga