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HUMANIDADE

“Onde estás?”
“Onde está o teu irmão?”

Não são duas perguntas ao calha, daquelas que por vezes fazemos apenas por hábito ou conveniência, sem esperar ou dar resposta. São duas das primeiras perguntas do Livro do Génesis e serão, provavelmente, as duas mais importantes perguntas que Deus nos faz, em cada hoje, em cada aqui, em cada agora das nossas vidas. Assim mesmo, não uma, mas duas perguntas, juntas, seguidas, coladas, inseparáveis, tão inseparáveis que devem ser uma só, ao ponto de marcarem indelevelmente a nossa vida vivida, o nosso quotidiano: eu não sou sem o meu irmão, eu não posso desligar o meu lugar do lugar do meu irmão. Sabemos como Jesus inverteu a ordem natural das coisas: o que serve é o primeiro, o forte é o mais fraco, o que (se) dá é o que recebe, e essa desordem natural é a que deve estar presente quando respondemos: eu estou onde o meu irmão precisa que esteja. Ou melhor, eu estou porque o meu irmão está, ele é, justamente, a razão para eu estar.

Na verdade, não é difícil de entender. Pensemos naqueles que amamos verdadeiramente, pensemos nos nossos pais, nos nossos filhos, nos que nos vão escolhendo como companheiros de caminho ao longo de toda a nossa vida. Pensemos naqueles com quem conversamos, com quem desabafamos, com quem partilhamos as nossas alegrias e preocupações, com quem nos aconselhamos. Recordemos como nos sentimos felizes com a sua felicidade, como nos dói o seu sofrimento, como é visceralmente nossa a sua dor, que é, sempre, maior que a nossa própria dor. Nada disto nos soa estranho. Nada disto nos é estranho. Porque é assim que sentimos que amamos. É quando nos sentimos assim que sabemos que amamos. É quando nos fazem sentir assim que sabemos que somos amados. E a verdade é que, se não for assim, não é de amor que se trata. Será alguma forma de conveniência, ocasional, fugaz, passageira, mas não será amor. Tal como referi, não é difícil de entender. Agora, só precisamos de ir além, de dar o salto, de amar aqueles que não conhecemos, ou de quem não gostamos.

Desde 2020 que, a cada 4 de fevereiro, se celebra o Dia Internacional da Fraternidade Humana. É uma tristeza, não é?

Não a celebração em si, claro, mas a necessidade que as Nações Unidas sentiram de criar um dia com o objetivo de promover a tolerância e o diálogo entre povos de diferentes religiões e culturas e destacar o contributo de cada uma para a Humanidade. Não deveria ser o normal em nós? Ver no outro o irmão e amá-lo como irmão não deveria ser a normalidade? Amar e dialogar e apreciar e aprender com a diferença não nos deveria ser tão normal como respirar?

Não é. E há quem se esforce muito para que não o seja, por forma a poder tirar disso vantagem. Basta-nos olhar para o lado de lá das nossas fronteiras para percebermos, à saciedade, como a qualidade da visão é inversamente proporcional é ilusão do poder. Que há pessoas - não, não são apenas Trump ou Putin – que vivem a sua vida encarceradas nas suas torres de marfim, que se deslocam nas suas limusines de vidros escuros, que, curvadas sobre o seu próprio umbigo, não veem mais nada nem ninguém a não ser elas próprias, numa cegueira incentivada pelo omnipresente séquito de bajuladores que pulula à sua volta à espera de algumas das migalhas que sacode de si. E, convenhamos, estes nem sequer são os mais perigosos. Porque viveram sempre assim, porque apenas conheceram isso, porque não conseguem ver o diferente, são apenas coerentes na sua cegueira. Ninguém que tenha escolhido Trump ou Putin aspiraria, ou sequer desejaria, que fossem e fizessem de forma diferente. Votaram no lobo justamente porque, sendo ovelhas, aspiram a ser lobos.

Mas, deste lado do oceano, extra e intra fronteiras, há quem, sendo lobo, nos quer convencer que é ovelha. Há quem se faça filmar a carregar, saco de arroz a saco de arroz, comida para os pobrezinhos, há quem se faça filmar, de fato e gravata, a plantar uma árvore, há quem se faça filmar a sair da missa, a rezar, com aquele ar compungido de quem se sente um mártir enviado por deus para salvar os pobres dos mortais. E o importante aqui é fazer-se filmar. Apenas isso importa, apenas isso é válido, porque apenas isso irá ser visto pelas ovelhas, iludindo-as, enganando-as, escondendo a pele do lobo sob a aparência de pastor. E isso é mais pernicioso ainda. É tomar por tolos aqueles que, verdadeiramente, conhecem a dor e o desespero e se veem usados no seu sofrimento.

Não admira por isso que - finalmente! - estejamos a assistir, nestas eleições, a uma mobilização da Igreja institucional e dos católicos em geral como há muito não se via.

O que faz todo o sentido, sobretudo se recordarmos a Homilia do Papa Francisco em Lampeduza, em 2013, “Muitos de nós estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos, não cuidamos nem guardamos aquilo que Deus criou para todos, e já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros. E, quando esta desorientação atinge as dimensões do mundo, chega-se a tragédias como aquela a que assistimos.” E não podemos continuar a assistir, colaborado passivamente, como se nada tivesse a ver connosco, a esta tragédia.

Claro que não somos imensos, claro que não conseguimos chegar a todos, mas podemos e devemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para que a realidade que construímos juntos seja o mais parecida possível com o Reino de Amor que Jesus nos mostrou. E um dos contributos, que todos somos chamados a cumprir, é escolher bem quando votarmos, cumprindo o que nos foi dito no dia 31 de janeiro pelo Papa Leão XIV: “Convido-vos a refletir sobre o facto de que não haverá paz sem pôr fim à guerra que a humanidade faz a si mesma quando descarta os fracos, quando exclui os pobres, quando permanece indiferente diante dos refugiados e dos oprimidos. Só quem cuida dos mais pequenos pode fazer coisas realmente grandes”.

Nem todos os fracos, nem todos os pobres, nem todos os refugiados e oprimidos que habitam as margens estão ao alcance da nossa mão, do nosso olhar, do nosso cuidado. Por isso, temos o dever de escolher quem melhor contribui para que possam ser bem acolhidos, para que possam ter o cuidado que precisam e merecem, para que possam recuperar a dignidade de Filhos Amados pelo Pai, que tantas vezes perderam quando deixaram a sua vida para trás. Também desta nossa escolha, na altura de votar, depende a resposta que, juntos, em sociedade, em comunidade, damos ao Pai quando nos pergunta onde está o nosso irmão. Para que não respondamos, como Caim, “Sou, porventura, guarda do meu irmão?” mas possamos celebrar, a cada 4 de fevereiro de cada ano, o Dia da Fraternidade de mãos dadas com o irmão que está, feliz, ao nosso lado.

José Pinho
Educador