Paradoxalmente Jesus quer-nos tranquilos enquanto inquieta o nosso coração. Na verdade, a palavra de Jesus, que nunca é desprovida de sentido mais profundo, desconcerta-nos ainda mais nos dias desconcertantes que vivemos.
Iniciamos um novo ano. Formulamos desejos, propósitos, metas... quase sempre na distância que vai entre os nossos olhos e o nosso umbigo! Ainda assim, seja porque as notícias nos mostram, seja por uma conversa mais analítica dos nossos dias, volta e meia somos chamados a uma realidade que teima em entrar-nos pelos olhos e pelo coração.
Falta-nos paz!
Há uma expressão que sempre me inquietou no léxico religioso ou litúrgico. Confesso que nunca entendi muito bem o pedido da paz “especialmente onde ela é mais necessária”... Distração e irreflexão minha certamente! E está bem de ver que a paz que pedimos no nosso contexto não há-de ser a paz que se pede nas orações em Gaza, na Ucrânia, no Sudão, na Síria, mas também na Venezuela ou nos Estados Unidos da América.
Há irmãos neste mundo global que precisam, efetivamente, mais da paz do que nós!
Há irmãos neste mundo global que põem os olhos e a esperança na paz que o mundo tem para lhe oferecer... e desiludem-se e desesperam a cada dia. Tristemente a paz que o mundo lhes oferece é sempre ou quase, importa afirmá-lo, geopolítica, interesseira, afirmativa de poderes... nunca ou quase nunca é generosa, humilde, grata, humana, dom a oferecer a todos!
Na Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026 que assinalámos a 1 de janeiro, o Papa Leão XIV afirma-nos que “Embora hoje não sejam poucas as pessoas com o coração pronto para a paz, um grande sentimento de impotência as invade diante do curso cada vez mais incerto dos acontecimentos.”
Envolve-nos uma ideia de que se queremos a paz, temos de nos armar! As despesas militares aumentam, há um esforço económico para o rearmamento e uma narrativa de conspiração de que vivemos sob constante ameaça, razão pela qual precisamos de investir numa defesa e segurança armada.
A esta altura é legítimo aos leitores questionarem-se sobre a ingenuidade do autor deste artigo. Asseguro-vos que não acredito no Pai Natal! Questiono-me sim sobre a quem serve uma paz blindada? Questiono-me quem ganha com a paz à custa da dignidade, da história ou da vida dos povos? Questiono-me sobre quem se põe em bicos dos pés para receber um prémio que não lhe foi atribuído? De que lugar, gente assim olha os irmãos? Questiono-me e dou-me conta de que não os olham assim porque não os consideram isso mesmo: irmãos!
Falta-nos outra paz!
Melhor dizendo: falta-nos A paz!
Não nos falta só a paz do mundo! Essa também... mas com só e apenas essa, voltaremos sempre, mais cedo ou mais tarde, a ter falta de paz e de vida em abundância. A paz que todos precisamos é uma paz que, por ser desarmada, é desarmante! É uma paz de coração.
No presépio encontramos uma bondade desarmante! Mas se não conseguirmos olhá-lo com olhos de fé, olhemo-lo com olhos de humanidade... A fragilidade, a inocência deviam desarmar-nos! Que homem ou mulher, que povo ou que líder avança sobre o seu irmão indefeso, frágil e desprotegido?
“Hoje, a justiça e a dignidade humana estão, mais do que nunca, expostas aos desequilíbrios de poder entre os mais fortes. Então, como viver num tempo de desestabilização e conflitos, libertando-se do mal? É necessário motivar e apoiar todas as iniciativas espirituais, culturais e políticas que mantenham viva a esperança (...)” 1
Faltam-nos homens e mulheres de Paz.
Vivemos dias em que há quem queime a terra para se erguer como o bombeiro que veio apagar o fogo! Nesta política de terra queimada, os sentidos e o senso parecem-nos turvos pela intensidade do fumo. Faltam-nos homens e mulheres que lavem os olhos e vistam túnicas brancas. Não vos pareça demasiada metafórica ou bíblica a expressão.
Faltam-nos homens e mulheres com verdadeiro compromisso público e trabalho efetivo em favor do bem comum. Faltam-nos bem-aventurados com mãos inocentes e o coração puro. Faltam-nos esses homens e essas mulheres em lugares de destaque, com peso político e decisório. Mas faltam-nos também aqueles que, não tendo essa responsabilidade, à medida das suas vidas das suas relações e contextos não se deixam turvar pelo fumo, não alimentam o ódio e a discriminação, não advogam muros e levantam a sua voz quando o Evangelho de Jesus é usado para dividir e excluir. Não foi para isso que Jesus, o príncipe da paz, veio!
1 Mensagem do Santo Padre Leão XIV para o Dia Mundial da Paz 2026
Luís Pedro de Sousa
Professor





















