A ideia e os valores republicanos marcaram profundamente o último quartel do século XIX e o século XX portugueses. Durante este arco temporal poder-se-á dizer que se construiu um património político republicano que resistiu à queda da I República (28 de maio de 1926), enfrentou pela via das armas a Ditadura Militar, foi oposição e um dos grandes inimigos do Estado Novo. Sobreviveu ao tempo e, ainda hoje, em pleno século XXI podemos encontrar os valores republicanos no discurso político contemporâneo.
Com as eleições Presidenciais à porta talvez esta seja uma boa oportunidade para revisitarmos os princípios fundadores da República que a tornaram naquilo que muitos consideram ser a melhor forma de governo e de como os valores que em si encerra são de uma atualidade que nos deve inspirar e mobilizar de forma individual em ordem a uma sociedade mais justa, igualitária, inclusiva, solidária e sustentável.
Na relação dual entre a política e a ética institucionalizou-se não só o primado do interesse público, mas também o latente compromisso cívico na conquista de um equilíbrio entre os interesses privados e a concretização do bem comum.
É certo que, no caso português, nem sempre foram estes os valores que nortearam as figuras políticas da I República fazendo deste período um dos mais polémicos e paradoxais da História de Portugal – porque foi uma transição abrupta depois de séculos de regime monárquico, uma época de intensificação dos conflitos sociais e, em nome da laicização do Estado, reabriu a questão religiosa iniciada na época pombalina. Ainda assim, para Teófilo Braga, um dos principais teóricos do republicanismo em Portugal, a fundação da República trouxe a forma política de uma sociedade “baseada na justiça, na igualdade civil e na própria dignidade humana” – um ideário absolutamente brilhante, sedutor e intemporal.
No atual contexto de Portugal e do Mundo, cujos acontecimentos nos deixam permanentemente desconcertados, impõe-se perguntar qual o lugar que ocupa a ética do bem comum – esse espaço agregador de paz, bem e progresso.
Quem nasceu na década de 70, como eu, terá na memória dois eventos internacionais que impactaram toda uma geração por se acreditar que, depois da II Guerra Mundial, nada parecido haveria de acontecer. Refiro-me à I Guerra do Golfo (1990-1991) e o genocídio em Srebrenica, na Bósnia-Herzegovina (1995). Talvez pela primeira vez, o mundo assistia em direto, em prime time e sem edições jornalísticas a uma outra condição humana que achávamos, à época, ter ficado encerrado nos livros de História. Afinal onde estavam os Homens construtores de paz, bem e progresso que fizeram nascer “uma espécie de Estados Unidos da Europa”?
Desde então, o mundo enfrenta uma multiplicidade de desafios complexos e impactantes que afetam profundamente as sociedades à escala global. Crises ambientais, desigualdades sociais e económicas, conflitos armados, instabilidade política, avanço acelerado da tecnologia e fragilização dos valores democráticos são apenas alguns dos fatores que colocam em risco o bem-estar coletivo e o futuro das próximas gerações. Diante desse cenário, torna-se cada vez mais evidente a importância da mobilização da sociedade civil como agente fundamental na construção de soluções sustentáveis e inclusivas em prol do bem comum.
Um dos desafios mais urgentes do nosso tempo é a crise ambiental. As alterações climáticas, a perda de biodiversidade e a exploração excessiva dos recursos naturais ameaçam os equilíbrios ecológicos e a sobrevivência humana. Embora os governos e as organizações internacionais tenham um papel crucial na formulação de políticas públicas, a participação ativa da sociedade civil é indispensável para promover mudanças de comportamento, pressionar por decisões responsáveis e fomentar uma consciência ambiental coletiva.
Paralelamente, as desigualdades sociais e económicas continuam a aprofundar-se em muitas regiões do mundo. Milhões de pessoas enfrentam pobreza extrema, insegurança alimentar, falta de acesso à educação, à saúde e a condições dignas de trabalho. A sociedade civil, por meio de associações, organizações não governamentais, movimentos sociais e iniciativas comunitárias, atua diretamente na mitigação dessas desigualdades, dando voz aos grupos marginalizados e promovendo a justiça social e a solidariedade.
Outro desafio significativo reside na fragilização da democracia e na crescente desinformação. A disseminação de notícias falsas, o enfraquecimento das instituições e a polarização social comprometem a confiança coletiva e a participação cívica. Neste contexto, a mobilização da sociedade civil é essencial para fortalecer a cultura democrática, incentivar o pensamento crítico, defender os direitos humanos e promover o diálogo construtivo entre diferentes setores da sociedade.
Além disso, o avanço tecnológico, apesar de trazer inúmeros benefícios, levanta questões éticas e sociais relevantes, como a exclusão digital, a proteção de dados e o impacto da automação no mercado de trabalho. A sociedade civil tem um papel estratégico ao contribuir para o debate público, garantir que a inovação tecnológica seja orientada por valores humanos e assegurar que seus benefícios sejam distribuídos de forma equitativa.
A mobilização da sociedade civil não deve ser vista como complementar, mas como parte integrante dos processos de transformação social.
Quando cidadãos se organizam, participam e se comprometem com o bem comum, tornam-se capazes de influenciar políticas, transformar realidades locais e globais e construir sociedades mais justas, sustentáveis e democráticas. Assim, fortalecer a sociedade civil é investir no futuro comum da humanidade.
Contudo, esta mobilização individual e coletiva tem de ser acompanhada por aposta robusta na educação - um dos pilares fundamentais para a construção do bem comum e para o desenvolvimento sustentável das sociedades e, talvez, o maior e mais duradouro investimento da I República. Mais do que um processo de transmissão de conhecimentos, a educação desempenha um papel essencial na formação de cidadãos conscientes, críticos, exigentes e comprometidos com a vida em comunidade. Num mundo marcado por profundas desigualdades, desafios globais e rápidas transformações sociais, investir na educação é investir num futuro mais justo, solidário e democrático.
Saibamos todos, como dizia Hannah Arendt, pensar “os nossos pensamentos pondo-se no lugar de outrem”.
Ângela Malheiro





















