No episódio bíblico das Bodas de Caná, conseguimos imaginar o embaraço dos noivos e familiares perante a falta de vinho, sinal da alegria. E no entanto, sem a falta de vinho tudo correria dentro da normalidade, mas nada de excecional poderia acontecer.
Foi e é na falta que pode sobreabundar a graça!
Confrontemos o paradigma da abundância com a pedagogia da falta. Pousemos o nosso olhar num outro episódio bíblico, o da Multiplicação dos Pães. Nele Jesus, não ficou indiferente aos que O ouviam e seguiam, olhou a humanidade e as necessidades de cada pessoa. Por isso, pediu aos discípulos que providenciassem alimento para a multidão. Perante a incredulidade dos mesmos face aos recursos que tinham em sua posse, Jesus pediu que se recolhesse tudo o que havia. Depois tomou os pães e os peixes recolhidos, deu graças, partiu-os e deu-os aos discípulos, e estes, à multidão.
“Magia” à parte, efetivamente, antes de começar chega para todos! A Pedagogia de Jesus não pretende apontar para excecionalidade do gesto, mas antes para a forma de construir comunidade. O pouco que cada um possui, quando colocado nas mãos de Jesus, transforma-se em alimento para todos. É ao bem comum que a pedagogia de Jesus convida!
Recentemente a Organização das Nações Unidas alertou para o facto de serem desperdiçados pelo menos 1.000 milhões de toneladas de alimentos, enquanto centenas de milhões de seres humanos passam fome. Cerca de 60% do desperdício ocorre em casa, e no total deitam-se fora mais de 1.000 porções de comida por dia.
A 29 de setembro assinalamos o Dia Internacional de Sensibilização para as Perdas e Desperdícios Alimentares. É urgente alertar para a dimensão do desperdício alimentar a nível mundial e incentivar a adoção de medidas urgentes para a sua redução de forma a garantir segurança alimentar para uma população mundial em crescimento, proteger os recursos naturais e a biodiversidade, reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e melhorar a nutrição, saúde e meios de subsistência de milhões de pessoas em todo o mundo.
O paradigma da abundância de alguns devia provocar-nos!
Não se trata de fazer a apologia da pobreza! Em ambientes sociais e digitais tão polarizados como os que vivemos, não faltará quem encontre neste texto a defesa de que em tempos idos, em que se passava e vivia muito mal, é que era bom ou quem, por outro lado, lhe encontre traços editoriais de um certo esquerdismo. Concentremo-nos no essencial e voltemos ao Evangelho de Mateus no capítulo 15, versículos 32 a 38. O texto termina dizendo que todos comeram e ficaram saciados, deixando claro que o objetivo de Jesus não é o benefício de alguns, mas a vida plena para todos. E diz mais, que recolheram os pedaços que sobraram. Ali, nada é desperdiçado! Há cuidado, gratidão e responsabilidade pelos dons recebidos. Ali há uma escolha clara pela humanidade e a vontade de tecer juntos o bem comum.
Todos os dias temos de fazer escolhas na nossa vida. E as escolhas, já o sabemos, têm consequências!
Pessoalmente, acredito muito pouco nas mudanças por decreto! Prefiro a educação que abre caminho para a mudança individual e coletiva, essencial para garantir um futuro alimentar mais justo e sustentável para todos.
Quanta riqueza seremos capazes de gerar para bem do mundo que Deus ama?
Luís Pedro de Sousa
Professor





















