Era o momento em que cerca de cinco dezenas de países se comprometiam com quatro objectivos gerais, esquissados sob o horror do segundo conflito bélico a que apendemos o adjectivo “mundial”: a manutenção da paz e da segurança internacionais; o desenvolvimento de relações de amizade entre nações assentes no respeito do princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos; a realização da cooperação internacional, por meio da resolução dos diversos problemas de cariz económico, social, cultural e humanitário e da promoção do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais; e, finalmente, a afirmação da doravante designada ONU como “um centro destinado a harmonizar a acção das nações para a consecução desses objectivos comuns” (Carta das Nações Unidas, Art. 1º, Ponto 4).
Com o transcurso da história, estas metas foram-se desdobrando e complexificando, desembocando nos oito denominados “Objectivos de Desenvolvimento do Milénio”, compromisso assumido em 2000 por quase o quádruplo do número de países que haviam firmado o primeiro documento mais de meio século antes. Do rol das novas metas consta(va): a erradicação da pobreza extrema e da fome; a efectivação da edução primária universal; a promoção da igualdade de género e da autonomia das mulheres; a redução da mortalidade infantil; a melhoria da saúde materna; o combate ao VIH/SIDA, malária e outras doenças; a garantia da sustentabilidade ambiental; e o estabelecimento de uma parceria mundial para o desenvolvimento.
Sustentar que o mundo discursivamente sonhado do outro lado do Atlântico está longe de se verificar não é, parece-me, uma afirmação que peque por tacanhez de espírito, crítica excessiva ou sequer pessimismo existencial.
Na verdade, o próprio intervalo temporal entre o gesto (simbólico? performático?) da assinatura da Carta da ONU em Julho 1945 e a sua entrada em vigor em Outubro ficou marcado pelo terror tecnológico das bombas atómicas lançadas nos territórios nipónicos de Nagasaki e Hiroshima (soam as palavras de Vinicius de Moraes na voz de Ney Matogrosso enquanto escrevo este texto – “Mas, oh, não se esqueçam/Da rosa da rosa/ Da rosa de Hiroshima”). De lá para cá, o acoplamento de substantivos como “ordem” e “segurança” ao de “paz” tem tragicamente servido para sulcar feridas na pele da Humanidade, grande parte delas provocada ou agravada por invasões encabeçadas pelo país onde se subscreveram os documentos com vista a um mundo mais justo.
O mapeamento da geografia do sofrimento humano nos últimos três quartéis faz-nos dar uma volta ao globo.
Sem hierarquia de gravidade, competições de miserabilismo, ou recurso a subterfúgios argumentativos para desculpar o inaceitável, podem elencar-se de forma não exaustiva e meramente alfabética: Afeganistão, Congo, Coreia, Haiti, Iémen, Iraque, Líbia, Palestina, Ruanda, Síria, Venezuela, Vietname. Nem mesmo os olhares mais eurocentrados que apregoam um tempo bafejado por um putativo pacifismo podem “desver” as consequências das desintegrações da Jugoslávia ou da URSS ou tapar os ouvidos quando se diz “Bósnia” ou “Ucrânia”. Para não falar da fome que continua a grassar em tantas latitudes. Para não adentrar na progressiva crise climática, face à qual múltiplos governos continuam a refugiar-se na vacuidade das afirmações sem consequência, ora pronunciadas, ora redigidas. Para não mergulhar na crescente retórica misógina que coloca qualquer expectativa de igualdade de género (ainda) num plano onírico. Para não... para nem...
É por demais evidente que o clamor de Paulo VI na Assembleia da ONU vinte anos após o seu nascimento (“Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra!”) – recordado por Leão XIV na sua primeira encíclica Magnifica Humanitas - permanece por cumprir. No mesmo documento epistolar, o actual pontífice recorda a centralidade da organização internacional como instrumento de promoção de uma “civilização do amor”, não deixando, contudo, de reconhecer a sua fragilidade no quadro do actual sistema político internacional, que carece de reformas profundas e não de meros “ajustes técnicos” (§226).
Não sou especialista em geopolítica, não me arvoro da pretensão de deter as soluções para o actual estado do mundo, e não postulo que estas se concentram num único indivíduo ou modus operandi. Tampouco existe em mim qualquer lampejo vocacional para o heroísmo ou para o martírio. Enquanto “mero cristão simples”, porém, arrisco dizer que não resolveremos o nosso mundo sem a faculdade da imaginação, de que nos (o uso da primeira pessoa do plural é proposital) fomos demitindo. Entristeço-me e condoo-me com a falta de imaginação a que (também) as comunidades cristãs/religiosas ficaram confinadas.
É-nos mais fácil imaginar o fim do mundo do que a sua transformação.
Afigura-se-nos mais plausível uma hecatombe apocalíptica do que a modificação radical dos modos de (re)produção. Refugiamo-nos no paradigma da incontornabilidade, escudamo-nos na inevitabilidade, respaldamo-nos no que é dito ser tradicional (preferindo, inclusivamente, ignorar que não existe tradição que não tenha sido inventada, logo, imaginada). É estranho verificar como a nossa prática orante recorre à imaginação – da “composição do lugar” inaciana às múltiplas modalidades imaginativas que permeiam o edifício histórico-religioso – mas a nossa prática actuante resiste tantas vezes à especulação criativa e até franze o sobrolho ante quem a ensaia, na construção do “reino que a nós vem” e que começa no chão que pisamos. É “aqui em baixo” que tudo principia, não “lá em cima”. Almejar um mundo melhor, mas relegá-lo para um plano celestial post-mortem que nos será um dia oferecido é, quanto a mim, inércia resignada mascarada de batota pseudo-teológica. Precisamos da concentração orante de Inácio de Loyola, mas também do sonho de Martin Luther King e das mangas arregaçadas para a luta de Dorothy Day. Não nos pode bastar o que está dado: urge (re)imaginar o que falta fazer. E fazê-lo. Rezo porque imagino e porque imagino, actuo. Deixo, por isso, um apelo, que pode ecoar de um microfone na sede da ONU a um megafone numa praça de Lisboa: orantes de todo o mundo – imaginai e agi!
Guilherme Borges Pires
Investigador





















