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O DIREITO A TOCAR O MUNDO

“Gosto da palavra reparar, pois transporta para o ato de ver uma polissemia e uma ética. Reparar introduz-nos por si só numa lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver parado, um revisar porventura mais minucioso do que um mero relance… Por isso, de certa forma, só quando reparamos começamos a ver.”
José Tolentino de Mendonça, A Mística do Instante

A reflexão sobre o trabalho infantil exige hoje um cuidado particular de discernimento: um ver parado. Num tempo em que a infância é simultaneamente exaltada e altamente protegida, corre-se o risco de dissolver realidades profundamente distintas sob uma mesma designação. Entre a legítima defesa da dignidade da criança e a sua proteção contra formas de exploração, pode instalar-se uma confusão subtil, mas de grande impacto: a de considerar qualquer forma de atividade, responsabilidade ou participação como expressão de trabalho infantil.
Esta confusão, ainda que nasça de uma preocupação ética genuína, levanta uma questão mais profunda sobre o lugar da infância na sociedade contemporânea e sobre as oportunidades que oferecemos às crianças para participarem, em pleno, na vida que as rodeia: estaremos a confundir trabalho infantil com infância — ou teremos esquecido o direito a tocar o mundo? 

Entre o trabalho infantil enquanto exploração — que nega a infância e compromete a dignidade da criança — e o universo das experiências formativas da infância, existe uma fronteira que exige atenção e discernimento, uma vez que nem toda a atividade realizada pela criança pode, ou deve, ser entendida como trabalho infantil, pois há uma dimensão da infância que se constrói precisamente na ação. 

De facto, a infância possui uma linguagem própria. Não porque vive à margem do mundo, mas porque o habita de forma diferente.

A aprendizagem na infância não acontece apenas pela transmissão de conteúdos ou pela instrução direta, mas sobretudo pela experiência vivida, pela relação com o outro e pelo envolvimento progressivo com o mundo. Sob esta premissa, olha-se o brincar enquanto expressão mais inteira da infância – e bem. Importa, porém, reparar no que lhe subjaz:  quando brinca, a criança entrega-se à brincadeira, participa nela em pleno; relaciona-se, experimenta, falha, frustra, insiste, recomeça.

Ora, estas experiências não são marginais no desenvolvimento; são constitutivas dele.  É nelas que se constrói a autoestima, a autonomia, a confiança, a criatividade e imaginação, a empatia, a tolerância à frustração, a regulação emocional, a capacidade de resolução de conflitos e o sentido de responsabilidade. Quando brinca, a criança não está em preparação para a vida: já está em vida; e é precisamente nesta possibilidade de participação plena que os horizontes da infância têm vindo a encolher.  

A sobreproteção atualmente exercida, ao procurar eliminar o risco e a dificuldade do horizonte infantil, reduz a possibilidade de a criança assumir um papel ativo no seu processo de crescimento e aprendizagem e de desenvolver competências fundamentais a este processo. Quando o adulto intervém de forma constante — resolvendo conflitos, antecipando obstáculos, retirando tarefas, evitando frustrações — a criança vê diminuída a oportunidade de experimentar por si própria a consequência das suas ações. Gradualmente, perde-se algo essencial: a possibilidade de errar, de tentar novamente e de descobrir, por experiência própria, os seus limites e os limites do mundo — lugar onde a autonomia, o sentido de responsabilidade e o equilíbrio emocional se vão construindo. Ora, aquilo que nasce como cuidado e proteção pode conduzir, inadvertidamente, a uma infância menos exercitada e, por isso, a uma limitação silenciosa do próprio desenvolvimento. Torna-se então necessário distinguir com clareza proteção de substituição. Proteger é acompanhar; substituir é retirar à criança a experiência. E é nessa diferença subtil que se encontra uma das condições essenciais do crescimento e desenvolvimento humano. 

Neste horizonte, importa não limitar a educação à proteção, entendendo-a, também, como abertura ao mundo.

Educar é acompanhar a criança no processo de se tornar capaz de habitar a realidade com liberdade interior, discernimento e responsabilidade. Isso implica reconhecer que o crescimento não acontece na ausência de tarefas e desafios, mas na sua vivência acompanhada e significativa. 

O desafio contemporâneo consiste, assim, parece-me, em encontrar um equilíbrio delicado entre proteção e autonomia, entre cuidado e confiança. Nem a exposição desmedida ao mundo, nem o afastamento excessivo dele favorecem uma infância plena. Entre estes dois extremos, existe um espaço educativo onde a criança pode crescer sem ser impedida de viver. E é precisamente nesse espaço que se revela uma das tarefas mais exigentes da educação: criar condições para o crescimento sem ocupar o lugar da experiência.
Cabe-nos oferecer segurança sem retirar autonomia, acompanhar sem substituir e permanecer presentes sem impedir o encontro da criança consigo mesma, com os outros e com o mundo, reconhecendo que é desse encontro que nasce o próprio processo de humanização.
Talvez aqui se revele o sentido mais profundo da proteção: não impedir a criança de tocar o mundo, mas permitir-lhe tocá-lo sem perder a sua dignidade — num horizonte de educação que preserva a integridade da infância e que procura que todos tenham vida. 

Luísa Vinagre
Educadora