Muitas vezes, crescemos com a ideia de que o nosso valor depende daquilo que fazemos e não daquilo que somos. Como consequência, vamos enchendo os dias de tarefas e os corações de cansaço. Mas ninguém floresce em permanente estado de sobrevivência.
Na verdade, as grandes decisões da vida, as escolhas que mudam o rumo da nossa história e os projetos que verdadeiramente transformam o mundo não nascem da agitação. Nascem do silêncio. Da escuta. De um coração capaz de fazer uma pausa para perceber quem é e para onde Deus o chama.
É aqui que encontramos o verdadeiro sentido do autocuidado.
Mas, afinal, o que significa cuidar de nós?
O autocuidado é frequentemente apresentado como um conjunto de práticas destinadas a promover o bem-estar físico, mental, emocional e espiritual. Contudo, para nós, cristãos, o seu significado é ainda mais profundo. Não se trata apenas de descansar ou de reservar algum tempo para si. Trata-se de cuidar da pessoa inteira: corpo, mente, coração e espírito.
O autocuidado não é um luxo. É uma necessidade. Não é egoísmo. É responsabilidade. É um profundo ato de amor. Por nós, mas, sobretudo, pelos outros. Não é afastarmo-nos dos outros; é prepararmo-nos para amar melhor a nós mesmos e ao próximo.
Muitas vezes, porém, confundimos autocuidado com consumo. Procuramos compensar o vazio interior através de compras, distrações ou satisfações imediatas. Vivemos numa cultura que nos convence de que seremos mais felizes se tivermos mais: mais coisas, mais experiências, mais reconhecimento.
Mas a paz não se encontra numa montra, nem tão-pouco naquilo que possuímos.
Aquilo que preenche o ego nem sempre alimenta a alma.
O consumismo oferece satisfação momentânea, mas não responde às perguntas mais profundas do coração humano. Depois de cada conquista surge uma nova necessidade. Depois de cada aquisição, um novo desejo. E o ciclo repete-se. Passam os dias e os anos sem que olhemos verdadeiramente para dentro, atribuindo a paz e a serenidade ao que vem de fora.
O que procuramos não é algo mais. É mais sentido.
Talvez por isso tantas pessoas se sintam cansadas mesmo quando têm tudo o que julgavam precisar. O coração humano foi criado para algo maior do que a acumulação. Foi criado para a comunhão, para o amor e para Deus (como ideia de que estamos conectados a algo maior do que nós).
O autocuidado começa quando deixamos de procurar fora aquilo que só pode ser encontrado dentro. Para isso é preciso parar: parar o corpo, silenciar a mente e alimentar o espírito.
Quem nunca para acaba por se perder de si mesmo.
A velocidade dos nossos dias tornou-se inimiga da profundidade. Saltamos de tarefa em tarefa, de compromisso em compromisso, sem tempo para escutar aquilo que sentimos, pensamos ou desejamos verdadeiramente.
No entanto, é precisamente no silêncio que encontramos a nossa verdade.
O silêncio não é ausência. O silêncio é presença. É nele que reconhecemos feridas que precisam de cura. É nele que damos nome às nossas emoções. É nele que percebemos aquilo que nos aproxima ou afasta de Deus.
Jesus compreendia esta necessidade. Antes dos momentos decisivos da sua missão, retirava-se para rezar. Procurava lugares solitários. Fazia pausas. Escutava o Pai.
Também nós precisamos desses desertos interiores.
Precisamos de momentos de oração, contemplação, escrita e recolhimento. Precisamos de criar espaços onde possamos perguntar, com sinceridade: «Senhor, o que queres de mim?»
Grande parte das respostas que procuramos não se encontra no ruído do mundo. Muitas vezes, essas respostas não são imediatas. Exigem tempo. Não o nosso tempo, mas o tempo de Deus, inevitavelmente diferente do nosso. Para as acolher, é necessária uma disposição interior que nasce precisamente desses momentos de silêncio, meditação e oração.
As respostas mais importantes da vida falam em voz baixa.
O autocuidado é, por isso, uma forma de cuidar da alma. E cuidar da alma significa alimentar aquilo que nos ajuda a discernir, a crescer e a viver com maior consciência.
Mas não somos apenas espírito. Somos também um corpo. O corpo é o primeiro dom que recebemos e a primeira casa que habitamos. É através dele que amamos, trabalhamos, servimos, abraçamos e nos relacionamos com o mundo.
São Paulo recorda-nos que o nosso corpo é templo do Espírito Santo. Como qualquer templo, merece respeito, atenção e cuidado. Por isso, autocuidar-se implica perguntar: como trato o meu corpo? Escolho alimentos que me nutrem? Respeito as minhas necessidades de descanso? Pratico exercício físico? Escuto os sinais do meu corpo?
Cuidar do corpo não é um ato de vaidade. É um ato de gratidão.
Da mesma forma, a mente também precisa de alimento. Aquilo que lemos, ouvimos e vemos molda a nossa forma de pensar. Uma mente constantemente exposta ao negativo, ao superficial ou ao excesso de estímulos acaba por perder clareza.
Por isso, é importante procurar leituras que despertem, inspirem e desafiem. Leituras que alimentem a esperança. Conversas que façam crescer. Experiências que ampliem horizontes.
Nem tudo o que ocupa a mente a fortalece. Nem tudo o que entretém a alma a alimenta.
O verdadeiro autocuidado exige escolhas conscientes. Exige atenção àquilo que entra no coração.
Por outro lado, cuidar do espírito implica manter viva a relação com Deus. A oração, os sacramentos, a pertença a grupos e comunidades, o contacto com a natureza e os momentos de contemplação ajudam-nos a permanecer ligados ao essencial.
Quando colocamos os pés na terra e o coração em Deus, reencontramos o nosso centro. Descobrimos quem somos e para que fomos criados. Descobrimos os dons que nos foram confiados e a forma como somos chamados a colocá-los ao serviço dos outros.
Porque o autocuidado nunca termina em nós mesmos. É precisamente aqui que reside a sua beleza.
Cuidar de mim não é escolher-me contra os outros. É escolher-me para os outros.
Uma pessoa serena gera serenidade. Uma pessoa reconciliada gera reconciliação. Uma pessoa que cuida da sua vida interior torna-se mais disponível para amar.
Como afirmava o Padre Gailhac: «Cabe-nos trabalhar com Jesus Cristo para transformar o mundo. Se queremos corresponder aos desígnios de Deus, é preciso que se realize a nossa transformação.»
Transformar o mundo começa por permitir que Deus transforme o nosso coração. Talvez seja este o maior convite do autocuidado: parar, escutar e cuidar. Não apenas quando estamos cansados, mas como um modo de viver. Porque não fomos criados para a exaustão. Fomos criados para a plenitude.
E cuidar de nós, com sabedoria e com Deus ao centro, é um dos caminhos mais belos para lá chegar.
Diana Campino
Professora





















