O que é que encontramos? Observemos, com calma, com delicadeza, como quem tem interesse. Não o façamos com pressa. Reservemos para nós o tempo necessário para percebermos a sua importância na nossa vida. As experiências não são sempre positivas e precisamos de estar preparados para as observar e integrar. É preciso preparação, para não lhes resistirmos e percebermos como nos moldaram.
Éramos nós as crianças. Agora somos nós os adultos, os cuidadores. Se aceitamos o desafio, com certeza ganhamos consciência do impacto que os nossos comportamentos, enquanto cuidadores, têm na formação da personalidade e no bem-estar das nossas crianças e jovens. Contribuímos desde cedo, desde sempre, para as suas memórias, para a formação do seu autoconceito e da sua autoestima. Recordemo-nos das pessoas que marcaram a nossa vida pelo afeto. Quem são? Pais? Avós? Outros cuidadores? Guardemos para nós, ou partilhemos com os nossos, com a ternura que este assunto merece. Queremos ser uma dessas pessoas na vida de quem cuidamos? Claro que sim! É isto que é ser Família! Família é cuidar, independentemente de laços biológicos e há muitos cuidadores que assumem, com grandeza, a arte de bem cuidar.
Ser família é desenvolvermos um sentimento de pertença em relação aos outros, sentirmo-nos ligados, essencialmente pelo afeto.
Todos precisamos de nos sentir afetivamente ligados. A nós mesmos, aos outros (a alguém) e a algo que nos dê sentido. E todos, sem exceção, precisamos de ser profunda e incondicionalmente amados por alguém. Isso é ser família!
Já nos dizia Bowlby que uma vinculação segura favorece o desenvolvimento positivo da personalidade, desde cedo, desde sempre. É essa segurança que nos transmite a confiança que precisamos para explorarmos o mundo, sabendo que, perante a adversidade (que é inerente ao crescimento), podemos contar com a nossa rede de apoio, aquela que, na retaguarda, nos acolhe e conforta nas desilusões, nos suporta nos desafios, e nos estimula a superar as nossas potencialidades. Se assim for, tornamo-nos mais resilientes, mais seguros, desenvolvemo-nos de forma mais harmoniosa.
E quando não é assim?
Há experiências de vida familiar marcadas por ausências, inseguranças ou dor. Que deixam marcas: podemos ter aprendido a olhar para nós e vermos só o que falta, e não o que temos de precioso; ou ter crescido com medo de mudanças e de nos aventurarmos em novas oportunidades; ou sentirmos dúvidas constantes.
As experiências não são sempre positivas. Podemos mudar isso? Podemos sempre, porque a vida permanece aberta e sempre com a possibilidade de reconstrução, nos diferentes papéis que assumimos.
O que precisamos? Urgentemente de continuar a alimentar laços afetivos fortes e seguros, onde possamos encontrar a valorização e o incentivo.
Conseguimos desenvolver resiliência (às vezes com esforço acrescido, outras com apoio acrescido, tudo é válido!) Vale a pena o esforço? Sempre. Também no nosso papel enquanto pais e enquanto educadores, temos oportunidade de o fazer, no dia a dia. Pelo tempo que dedicamos aos nossos, aos que estão ao nosso cuidado. Pelo exemplo que somos. Pelos valores que passamos. Isso é ser Família. Somos pessoas significativas para as nossas crianças e jovens e por isso temos uma responsabilidade enormíssima na sua educação como pessoas.
Ser família é estar aberto à comunidade, estabelecer relações colaborativas com diferentes contextos, em prol do desenvolvimento harmonioso dos seus. Ser família é relacionar-se com outros contextos educativos, especialmente com a escola que também tem um papel fundamental no bem cuidar. As crianças chegam à escola com uma bagagem emocional grande, disponíveis para continuar a crescer nos novos vínculos afetivos que vão criar, ansiosas por novas oportunidades, novas aprendizagens. Aquelas que lhes vão permitir continuar a gostar de si mesmas e sentirem-se capazes de abraçar desafios diariamente, momento a momento, tarefa a tarefa.
Cada Família, independentemente de qual seja, é única na forma como cuida.
Não existem famílias iguais nem famílias perfeitas. Cada uma tem a sua identidade, as suas dificuldades e o seu modo próprio de lidar com os seus desafios, tantas vezes à procura do equilíbrio, tantas vezes recorrendo às suas próprias redes de apoio. Quais são as nossas redes de apoio? Aquelas que nos suportam em momentos de transição, de reestruturação, de crise?
Dizem-nos as teorias sistémicas que todas as famílias estão em desenvolvimento, em transformação contínua mediante as mudanças (umas desejadas, outras inesperadas) com que têm de lidar e as tarefas de desenvolvimento que têm de cumprir.
Ser Família é então estar atento, conhecer e valorizar os seus e incentivar à autonomia. É colocar limites e educar para a diversidade, num mundo em constante transformação em que os valores humanos fazem a diferença.
Neste Dia Internacional da Família, importa lembrar que ser família, como sabemos, é cuidar com Amor, com Exemplo e dedicando aos nossos o que de mais precioso há: o Tempo. Ser família é estar comprometida com o desenvolvimento dos seus, com empenho e humildade, zelando sempre pelo seu bem-estar! Isso é ser Família!
Carla Magalhães
Psicóloga





















