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SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS UNS PELOS OUTROS

Durante a minha militância na Ação Católica, pelas mãos do MCE, lembro-me de me ter chegado um texto de Edgar Morin que me marcou sobremaneira, e que me tem vindo a acompanhar ao longo dos tempos.

O filósofo francês, atualmente com 102 anos, escrevia assim:

“Cada manhã, os grãos de café que eu bebo vêm dos planaltos da América Central ou da Abissínia, o chá que infunde na minha chávena foi colhido no longínquo Yunnan, o meu sumo de frutas foi extraído de toranjas da Florida ou de Israel.
As minhas camisas de algodão indiano foram manufaturadas na Formosa ou em Macau. Assoo-me em fio do Egito ou em papel Kleenex vindo das florestas canadianas.
Ouço as minhas notícias no meu transístor japonês, escrevo o esboço deste livro europeu com o ouro siberiano ou sul-africano do aparo de uma caneta, datilografo-o na minha Canon japonesa enquanto não chega o meu Macintosh americano.
A cada uma das minhas refeições, ao mesmo tempo que reservo o meu copo à França, convido a América Latina, a Ásia e a África para o meu prato. 
O tecido das nossas vidas contém desde já uma grande parte de textura planetária.”

Foi a beleza desta “teia”, deste “tecido” colorido, que mexeu comigo e que fez com que este texto me tivesse ficado preso no coração e na memória. Ora, se isto me fala, ainda hoje, da riqueza da diversidade, da interdependência e da globalização, também me fala do quão importantes todos somos nesta teia de relações que estabelecemos, pois somos todos parte de um conjunto, a humanidade, ou, para nós, o povo de Deus. 

No entanto, quando nos toca a reconhecer o outro, o diferente, o de “outra terra”, como um irmão, como um semelhante, como alguém igualmente amado e querido por Deus, “o tecido das nossas vidas” parece enrugar-se um pouco mais e torna-se menos rico, menos colorido e menos interessante.

Sobre esta dicotomia, logo no primeiríssimo parágrafo da Fratelli Tutti, o Papa Francisco faz-nos um “convite a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço; nele declara feliz quem ama o outro, «o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de si».” Este amor - segue Francisco -, vivido pelo Francisco que o inspira - “o” de Assis -, não se impõe, mas comunica o amor de Deus, livremente, sem o «desejo de domínio» sobre os outros.

Ora, atualmente, vivemos, em todo o mundo, o exato oposto; o exato oposto daquilo que julgávamos já ter abandonado: os nacionalismos, a sobreposição dos valores ocidentais a todos os outros, o desprezo pelas minorias e a diabolização da imigração, o que resulta em divisões maniqueístas entre os bons e os maus. Preocupa-me, contudo, que parte da alimentação deste monstro parta também de quem se diz identificado com a Igreja, com o Evangelho, com Jesus. Inquieta-me, até!

Entendo que o medo e o ódio são os monstros que crescem com maior facilidade, mas só crescem se alimentados. A determinado momento das nossas vidas, devemos perguntar-nos quem alimentamos mais com os nossos gestos ou com as nossas palavras: o medo e o ódio ou o amor. Entendo que quem mais alimenta o medo e o ódio se serve de um propósito contrário ao evangélico, um interesse próprio – uma agenda. E é aí que o Evangelho terá de funcionar como resposta. O Evangelho mostra-nos que o medo divide, o medo assusta, o medo cria divisão – cria ódio. O amor – ah, o amor! – esse aproxima, sossega-nos, torna-nos livres e, ao mesmo tempo, envolve-nos num manto quente e protetor, como o da Mãe, a que sempre ama e suporta - como se tivesse feito connosco um compromisso marital, «na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da vossa vida».

Mas, perante um panorama que pode parecer escuro e feio, cheio de desesperança, talvez nos perguntemos, como o fazia Ricardo Cantalapiedra, numa canção que também me tocou muito durante a militância juvenil: «Onde estão os profetas/que noutros tempos nos deram/as esperanças e forças para andar?». O cantautor leonês responde, porém, de forma esperançosa, indicando caminhos. E, se olharmos para “isto” com os olhos de Deus, havemos de responder, também: «Nas cidades e nos campos, entre nós estão!»

Lanço o repto para escutarmos aqueles que poderão ser os profetas de hoje; para os procurarmos por entre os dias vertiginosos e pesados, bem como por entre os falsos profetas que se agigantam, e lanço, igualmente, o pedido de nos deixarmos ser profetas.

Profetas do bem, da esperança, profetas daquEle que vem para nos dar “Vida” – em abundância, sem condições superlativas, condições essas que são sempre colocadas por nós e nunca por Ele.

Comemorado, no passado domingo, o Dia da Fraternidade ou o Dia dos Amigos – e que bom é entender a amizade como fraternidade e a fraternidade como amizade -, faço votos para que não nos esqueçamos da inquietação bíblica que nos deve agitar a todos – “o que fizeste do teu irmão?”. Talvez a pergunta nos leve a uma outra: “Quem é o meu irmão?” Atrevo-me a responder, apenas: o Outro. E, como dizia Zygmunt Bauman, que em 2016 falou a Francisco, em Assis, numa comunicação à qual deu o nome de “Há uma luz ao fundo do túnel”: «Somos todos responsáveis uns pelos outros.»

Fábio Pereira
Professor