Em nome de Deus faz-se muita coisa — e há coisas que, certamente, não são nem podem ser feitas em nome d’Ele. A discriminação é uma delas. Quando usamos o nome de Deus para excluir, ferir ou levantar fronteiras, afastamo-nos, certamente, da Sua vontade. Esta afirmação ganha ainda maior peso para os crentes, sejam eles de que confissão forem, afinal a defesa de toda a dignidade humana não é um acessório da fé.
O Papa Francisco, na encíclica Fratelli Tutti, recorda-nos que o caminho para um mundo verdadeiramente humano e fraterno passa pelo diálogo com o outro e pelo encontro entre religiões. Como verdadeiro pontífice, isto é, criador de pontes, Francisco insistia que a solução nunca seria erguer mais muros, mas construir mais pontes capazes de aproximar pessoas, culturas e crenças.
Leão XIV iniciou o seu pontificado colocando a Paz no centro da sua missão pastoral. Ainda o ouvimos dirigindo-se à cidade e ao mundo: “A Paz esteja com TODOS vós.” A paz não é apenas ausência de guerras — e mesmo essas voltaram aos nossos dias em larga escala, seja de número, seja de intensidade de conflito — mas uma atitude interior, um compromisso diário.
A Paz deve ser a essência e a consequência de ligação de cada ser humano a Deus. Dessa união, espera-se paz para o próprio e através dele para a sociedade. E no entanto, em nome de Deus, cristãos, muçulmanos e judeus continuam, ainda, tão e cada vez mais divididos.
Não surpreende, por isso, que Leão XIV tenha escolhido a Turquia e o Líbano como destino da sua primeira viagem apostólica, lugares marcados pelo encontro entre tradições espirituais e pela diversidade cultural. O próprio Papa afirmou que, a viagem, nos mostrou que “a paz é possível e que os cristãos, em diálogo com homens e mulheres de outros credos e culturas, podem ajudar a construí-la. Não nos esqueçamos: a paz é possível.”
Efetivamente, como cristãos, não podemos defender outra coisa que não seja a paz e liberdade religiosa, comprometendo-nos seriamente no diálogo inter-religioso.
O Cristianismo, nas suas origens, defendeu esta liberdade até ao sacrifício da própria vida. Hoje não podemos proclamar que Deus nos criou livres e depois negar essa mesma liberdade a quem pensa ou crê de forma diferente.
A liberdade religiosa deve ser defendida para todos, sem exceção. Dialogar com “o outro” não é abdicar da própria identidade, nem renegar princípios fundamentais. É, antes, escutar e respeitar. E não falamos de apoiar a liberdade religiosa apenas “nos países deles”: falamos de a defender em todos os lugares, em todas as culturas, incluindo a nossa. É nossa responsabilidade construir pontes e procurar valores comuns, raízes que sustentem uma convivência verdadeira e pacífica. E, no entanto, o discurso de ódio prolifera!
A 15 de março assinalamos o Dia Internacional de Combate à Islamofobia. Trata-se de mais uma data que reafirma que nenhum preconceito pode ser normalizado. O medo do outro, quando se transforma em rejeição e hostilidade, deixa de ser apenas um sentimento e torna‑se um problema social real. As fobias que se tornam discriminação devem ser identificadas, corrigidas e tratadas, pois ameaçam a paz social e a dignidade humana.
As diferenças culturais, teológicas, ideológicas ou políticas não podem servir de desculpa para o afastamento, a desconfiança ou o medo.
Integrar não é dominar, assim como integrar-se não é esconder-se ou anular a própria identidade. De ambos os “lados” impõe-se uma palavra clara e inequívoca: respeitar.
Na sua mensagem para este dia, em 2025, António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas, alertou para o aumento preocupante da intolerância antimuçulmana e lembrou que os governos têm responsabilidades concretas na proteção de minorias religiosas. Sublinhou também que as plataformas digitais devem assumir a sua parte, travando a disseminação de discursos de ódio que fermentam medos e dividem sociedades.
É certo que precisamos de ouvir vozes muçulmanas moderadas, por exemplo, lembrando que o Alcorão defende a liberdade religiosa e afirma ser dever dos crentes proteger e honrar todos os lugares de culto. Mas é igualmente verdade que precisamos que se elevem vozes moderadas de cristãos, judeus e crentes de todas as tradições, dispostos a recusar extremismos, a recuperar a interioridade, a educar para a convivência e a promover uma cultura de paz.
A liberdade religiosa não é um privilégio. É um direito.
O respeito mútuo não é uma opção. É um dever.
Em nome d’Ele, só a paz e o bem!
Luís Pedro de Sousa
Professor





















