Esse silêncio não é apenas poético — é político, social e institucional. É o silêncio de uma ausência: a falta de uma Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, num tempo em que ela é mais necessária do que nunca.
Nesta mesma linha poética, vivemos “no meio de tanta gente”, numa sociedade plural e diversa, onde o povo cigano faz parte há mais de cinco séculos. E, no entanto, continua muitas vezes invisível, como “um grito / ou uma pedra / de um lugar onde não estou”. Esta sensação de não pertença traduz-se numa exclusão persistente, que não é apenas material, mas também simbólica — uma exclusão do reconhecimento, da escuta e da participação plena.
A multiculturalidade cigana é, por si só, uma riqueza incontornável. A sua cultura, marcada pela oralidade, pela música, pelos laços familiares e pela espiritualidade, representa um contributo único para a identidade portuguesa. Como é sublinhado na reflexão do Dia Internacional dos Ciganos, esta presença secular deve ser entendida como um património vivo, feito de resistência e de superação
Hoje, vemos sinais de mudança: jovens ciganos a estudar, a participar politicamente, a afirmar-se na sociedade. São sinais de esperança.
Contudo, os versos recordam-nos que “há palavras por dizer”. E essas palavras são políticas públicas, compromissos estruturais, estratégias concretas. Porque a realidade continua marcada por desigualdades profundas. A exclusão no acesso à educação, à habitação, ao emprego e à saúde permanece uma constante. A Estratégia Nacional anterior reconhecia já a existência de discriminação e de pobreza estrutural, bem como a necessidade de combater o desconhecimento e os estereótipos
Contudo, a sua ausência atual deixa um vazio difícil de ignorar.
Esse vazio é, precisamente, o “tempo que tarda em passar / e aquilo em que ninguém quer acreditar”. É o tempo da espera por respostas que não chegam, por decisões políticas adiadas, por compromissos que ficam por cumprir. A falta de uma nova Estratégia Nacional não é apenas uma lacuna administrativa — é um sinal de uma falta de priorização de uma causa urgente.
O drama das comunidades ciganas é também o drama do preconceito. O anticiganismo continua enraizado na sociedade, manifestando-se de forma concreta nas oportunidades negadas e nas barreiras persistentes. Este preconceito transforma-se num ciclo vicioso: a exclusão alimenta a marginalização, e a marginalização reforça os estereótipos.
E, no entanto, irrompe sempre um “grito”. Um grito de dignidade, de resistência e de esperança. Um grito que se expressa na cultura, na fé, na solidariedade e na capacidade de reinventar caminhos. O Papa Leão XIV recorda que as comunidades ciganas são chamadas a partilhar a beleza da sua cultura e a construir pontes de diálogo, baseadas na dignidade do trabalho e da oração. Este apelo é também dirigido à sociedade em geral: é necessário ouvir, reconhecer e agir.
A história do povo cigano em Portugal é feita de pedras — obstáculos, discriminação, exclusão — mas também de gritos — resistência, identidade, afirmação. Cabe-nos decidir qual destas dimensões queremos perpetuar.
Uma Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas não é apenas um instrumento técnico.
É uma resposta a esse grito. É um compromisso com a igualdade, com a justiça e com a dignidade humana. É a concretização de um princípio fundamental: ninguém pode ficar para trás.
A música de Maria Guinot recorda-nos que vivemos entre o “sim alegre” e o “triste não”. O “sim” é o da inclusão, do reconhecimento, de ação política. O “não” é o da indiferença, do silêncio, da omissão. Hoje, Portugal encontra-se perante essa escolha.
Que não troquemos “a vida por um dia de ilusão”. Que não nos contentemos com discursos ou celebrações simbólicas. O momento exige ação concreta, urgente e estruturada. Porque o silêncio já dura há demasiado tempo. E há, ainda, demasiadas palavras por escrever e por dizer.
Hélder Afonso
Diretor Nacional da Pastoral dos Ciganos





















