Menu Fechar

TECENDO REDES DE DIGNIDADE E ESPERANÇA

Celebrar o Dia Mundial do Refugiado é sintonizar o coração com o drama silencioso de milhões de irmãos e irmãs que foram forçados a deixar as suas terras, as suas casas e os seus afetos.

No rosto de cada refugiado, especialmente no olhar vulnerável dos menores deslocados, ecoa um apelo urgente que desafia a nossa indiferença e convoca a nossa ação partilhada. Como Religiosas do Sagrado Coração de Maria, esta realidade interpela-nos diretamente na nossa identidade e na nossa fé.                   

Este apelo toca diretamente no cerne da nossa missão: "Para que todos tenham vida" (Jo 10,10). Guiados por este lema evangélico, todos aqueles que sintonizam com este carisma são desafiados ao zelo apostólico de transformar o mundo com gestos concretos. O carisma RSCM, moldado pela compaixão e pelo compromisso com a justiça e a paz, impele a comunidade a habitar as "fraturas do mundo", tornando-se porto seguro para quem caminha sem pátria e procura o direito fundamental de recomeçar com dignidade.

Somos chamados a encarnar o “Eu vim…”(Jo 10,10) de Jesus Cristo que não conhece fronteiras, nacionalidades ou estatutos legais.

A promessa de vida que Jesus traz, pertence a cada pessoa humana, especialmente àquelas cuja vida e dignidade estão mais ameaçadas. Falar de refugiados, para nós, é falar de rostos concretos, de histórias de coragem e do direito sagrado a uma vida em abundância.

Fiéis ao espírito concedido ao Ven. Pe. Jean Gailhac e à Mère St. Jean, somos chamados a responder com audácia aos apelos do nosso tempo. Num mundo frequentemente tentado pela indiferença e pelos muros da exclusão, a nossa missão exige que sejamos construtores de pontes. Então, celebrar este dia é renovar o nosso compromisso com a “Cultura do Encontro” e com a “Hospitalidade”, como nos interpelou o Papa Francisco, transformando as nossas comunidades e ministérios em lugares de acolhimento seguro, escuta atenta e reabilitação da dignidade.

Unidos à nossa missão global na ONU e à rede JPIC (Justiça, Paz e Integridade da Criação), usamos a nossa voz digital - Ut Vitam - para a defesa dos direitos dos migrantes e refugiados, com uma atenção muito especial às mulheres e crianças, as mais vulneráveis nestes percursos de dor. Não nos limitemos a assistir; somos convocados a agir, a educar para a justiça e a denunciar as causas estruturais que geram o deslocamento forçado. Queremos que as histórias de migração forçada deixem de ser apenas números e passem a ser rostos concretos de coragem, resiliência e busca por justiça: um rosto de irmão portador da presença de Cristo.

Esta missão prática e espiritual encontra o seu mais recente e vigoroso amparo na Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV.

Diz o texto da encíclica (nº 81): “Um teste decisivo para a justiça social é hoje representado pela condição dos migrantes, dos refugiados e dos que são obrigados a deslocar-se devido à pobreza, à violência, às alterações climáticas e às catástrofes ambientais. A forma como uma sociedade os trata revela se a sua noção de justiça é orientada pelo medo ou pela fraternidade”.

Ao alertar o mundo para a necessidade de salvaguardar a centralidade da pessoa humana, o Santo Padre recorda-nos que a verdadeira grandeza da humanidade se mede pela forma como cuidamos dos mais vulneráveis. Num tempo marcado pela indiferença tecnológica e por sistemas económicos de exclusão, a Magnifica Humanitas eleva os migrantes e refugiados a ícones da dignidade que nunca pode ser digitalizada, descartada ou esquecida.

Que o Sagrado Coração de Maria, que também conheceu a dureza do exílio na fuga para o Egito, inspire os nossos passos. Que saibamos, em cada gesto de partilha, tecer redes globais de solidariedade e esperança, para que o mundo reconheça que somos todos membros da mesma família humana.

Ir. Manuela Queirós
rscm